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DE OLHOS BEM FECHADOS

QUANTAS PESSOAS FORAM GUILHOTINADAS NO DECURSO DA REVOLUÇÃO FRANCESA? Responde a Inteligência Artificial:  Estima-se que cerca de 17 mil pessoas foram oficialmente guilhotinadas durante a Revolução Francesa. Contudo, se forem contabilizadas as execuções sem julgamento formal e as mortes nas prisões, o número total de vítimas  no período chega a aproximadamente 40 mil pessoas.

Estatísticas Principais

- Período do Terror (1793-1794): Fase mais violenta, liderada pelos jacobinos sob o comando de Maximilien Robespierre. Concentrou exactamente 16.594 execuções oficiais por guilhotina em pouco mais de um ano.

- Total da Era Revolucionária (1792-1799): o número total de mortes estimadas por decapitação atinge cerca de 40 mil vítimas ao longo de toda a dinâmica revolucionária.

- Média diária: No auge do Terror, o Tribunal Revolucionário executava uma média de 20 pessoas por dia.

 

O MEU TIPO INESQUECÍVEL (9) 

(UM HOMEM INOCENTE)

      João Relento era uma celebridade local, devido, entre outras razões, às suas conhecidas e frequentes noitadas pelos subúrbios da cidade. "Relento", uma alcunha popular, exactamente porque era indiferente ao frio, ao vento ou mesmo à chuva, nas suas deambulações nocturnas em busca de prazer.  Farejava tudo quanto fossem bares ou tabernas, locais de entretenimento ou de festas, até os particulares, onde, mesmo sem ser convidado, era sempre bem recebido, dada a sua popularidade. Homem dos seus quarenta anos, carpinteiro de profissão, alto e magro, quem o topasse, a uma certa distância e de madrugada, via uma figura esguia recortar-se na semi-obscuridade, caminhando em direcção a um dos bairros suburbanos bem conhecido pelos seus lugares de diversão, tais como pequenos bailes públicos que serviam  de pretexto para venda de bebidas alcoólicas acompanhadas de petiscos variados e tudo com alguma e nem sempre discreta prostituição à mistura. Além desse bairro, João Relento era homem para bater ainda, na mesma madrugada, mais dois ou três locais, com a mesma finalidade de se divertir através dos copos, da dança e do convívio. João Relento definia-se assim mesmo -- um homem dado ao prazer, sobretudo ao prazer da noite, e para quem o prazer se sobrepunha a tudo. Resumindo: um hedonista nato sem disso ter a mínima consciência, que nunca ouvira falar de tal vocábulo e, muito menos, do seu significado. Nem outra coisa, de resto, seria de esperar de um humilde carpinteiro, parco em matéria de instrução.

       

        DE OLHOS BEM FECHADOS

        Entrei no hotel e dirigi-me ao balcão do recepcionista. Fiz a este empregado dois pedidos: a chave do quarto e o favor de me acordar, no dia seguinte, às sete horas da manhã. Nesse preciso momento, aproximou-se de mim o gerente do hotel, um velho conhecido meu de outras inúmeras vezes em que me hospedei no seu estabelecimento. Já nem me lembrava do seu nome. Fez-me um cumprimento simpático como sempre. Na posse da chave, agradeci ao recepcionista e fui para o quarto. Pouco tempo depois estava deitado e a dormir. 

           Senti-me fortemente sacudido e acordei assustado sem compreender no imediato o que se estava a passar. Reparei que a luz do tecto se encontrava acesa e, por cima de mim, em pé, dois homens corpulentos que pareciam ser europeus, ambos de uniforme cinzento e armados de pistola no coldre, fitavam-me com alguma intensidade, mas sem articular qualquer palavra. Ao fim de alguns segundos de silêncio, consegui a custo inquirir: 

-- Que se passa? Que querem os senhores?

-- Para já, queremos que nos acompanhes e nada de mais perguntas. -- Respondeu de modo rude, embora em voz baixa, o indivíduo mais alto e que aparentava ter mais idade.

    Insisti sem deixar de notar o arrogante e sintomático tratamento por "tu":

-- Mas acompanhar por que motivo e para onde? O que é que fiz que justifique esta vossa atitude? Julgo-me no direito de obter dos senhores uma explicação no mínimo cabal para esta situação insólita: alguém que se encontra tranquilamente a dormir, num quarto de hotel, é acordado de forma brusca e convidado, sem qualquer razão aparente, a acompanhar dois desconhecidos e, ainda por cima, sem saber para onde..

       O intruso mais velho interrompeu-me no mesmo tom brusco, mas sempre a meia-voz:

-- Já te disse. Não tens que fazer perguntas. Limita-te a mudar de roupa e a acompanhar-nos, pois, de contrário, seremos obrigados a tomar medidas mais convincentes.

       Nesta altura, o homem encostou significativamente a mão direita ao coldre. Perante esta ameaça velada, compreendi então que só tinha de obedecer à ordem de todo absurda, embora contrariado. Surpreendia-me a ausência do pessoal do hotel. O que teria acontecido ao gerente ou mesmo ao recepcionista para que não tivessem dado pela entrada no hotel e no meu quarto dos dois sujeitos, nem pelo curto diálogo que travei com estes? 

        Levantei-me e em presença dos dois indivíduos, despi o pijama que troquei pela roupa que trazia vestida antes de me deitar e que estava mais à mão. Depois de calçar as peúgas e os sapatos, eu disse:

  -- Estou à disposição dos senhores. 

        A partir daqui tudo se passou com rapidez: os dois homens ladearam-me sem perder tempo e, segurando-me por um dos braços, ordenou o mais velho:

  -- Vamos-nos embora!

         Um deles apagou a luz do tecto e saímos do quarto em direcção à rua, com passagem pela recepção do hotel que se mostrava deserta e à meia-luz. Lá fora, encontrava-se estacionado, mesmo à saída do hotel, um autocarro cinzento, sem janelas e que, na escuridão e no silêncio da madrugada, me deu a ideia de qualquer coisa de monstruoso. Encaminharam-me para a retaguarda do veículo e ordenaram-me que entrasse. Nesse momento, parei e em jeito de desabafo, não me contive e voltei a perguntar:

 -- Qual a minha relação com isto tudo? Com este autocarro? Com os desterros? Com os polícias? Com as prisões? Com os tribunais? Com o Sistema? Nunca fui julgado. Nem em tribunais nem em nenhuma outra circunstância. Nunca estive preso. Não cometi crime seja de que espécie for. Não tenho, nem nunca tive qualquer actividade política. Sou um solitário. Um individualista. An outsider. Não passo de um escritor de histórias de aventuras, publicadas em livros de banda desenhada. Histórias simples de heróis de outros tempos e de paisagens exóticas. Heróis que vivem noutro mundo. Tal como eu, aliás. Há nisto tudo um grande equívoco. Deixem-me em paz! Not guilty!

         De dentro do autocarro veio uma voz de difícil identificação, uma voz cujo timbre, no entanto, me parecia algo familiar:

   -- Não interessa se há equívoco ou não. Cala-te e vem cá para dentro. Apenas te informo que vais ser deportado para um lugar de que no momento próprio serás informado. Quanto às razões, isso é cá connosco. Para já, não são da tua conta. 

            Foi então que percebi com nitidez que a fala pertencia ao gerente do hotel. Afinal de contas, o homem que me acabara de cumprimentar com simpatia no hall do hotel e com quem algumas vezes almoçara ou jantara a seu convite. Fiquei estupefacto. Não conseguia perceber nada do que se estava a passar. Que relação podia ter esse mesmo indivíduo com aquilo tudo? Fora sempre conhecido como um empresário bem-sucedido e uma pessoa atenciosa para com toda a gente, sobretudo para com os hóspedes do hotel. Nada o ligava a nenhuma organização, política ou outra qualquer. A minha surpresa tornava-se ainda maior por ter sido apanhado nas teias de uma malha que me parecia absurda e na qual estava envolvida uma figura em quem vira sempre um quase amigo. E a confusão era tal que me faltou por alguns instantes toda a capacidade de resistência e discernimento. Em consequência disso, perdi por momentos a consciência e, quando recobrei a lucidez, descobri que estava instalado no que me parecia ser um dos dois bancos corridos do autocarro e na mais completa escuridão. Dei-me conta também de que ao meu lado se sentavam mais pessoas que, todavia, não podia reconhecer devido à ausência de luz. Entretanto, o motor começou a trabalhar e, em seguida, o veículo pôs-se em marcha. De súbito, o enorme espaço do interior do autocarro ficou iluminado por um foco intenso proveniente do tecto. Fechei por acto reflexo os olhos para atenuar os efeitos desagradáveis daquela luz inesperada. Pouco a pouco e de forma gradual retomei a visão. Percorri então com a vista todo o interior do autocarro e constatei que os meus companheiros de infortúnio não passavam de dez homens, entre os quais, três padres que eu não conhecia e dois ou três antigos colegas do liceu, além do recepcionista do hotel. Neste último caso, uma presença ainda mais surpreendente e que explicava agora a razão por que esse funcionário não se encontrava no seu posto de trabalho quando por lá eu tinha passado pouco tempo antes. O silêncio era total e os ocupantes mostravam quase todos uma expressão facial de alheamento completo do que  ocorria à sua volta. Pareciam virados para dentro de si próprios, todos a cogitar provavelmente em tudo quanto acabara de lhes suceder e no que seria o desfecho daquilo tudo. Eu não fugia à regra e não deixava de conter uma certa indignação, em particular, porque não conseguia descortinar uma explicação plausível para o que me estava a acontecer. Era tudo de um enorme absurdo. Para além do mais, tendo como companhia personagens aos quais não me sentia de forma alguma ligado. A dada altura, em registo de revolta íntima, perguntei-me:

   -- Que estou eu a fazer aqui? Que tenho eu a ver com estes homens que mal conheço ou não conheço de todo? Homens que acabam por fazer parte de uma paisagem social a que não pertenço? Homens que, por uma razão ou por outra, nada têm a ver com o meu restrito círculo de amigos, apreciadores da arte e da cultura, com os quais às vezes me encontro para conversas que versam sobretudo esses temas e pouco mais? Repito: Que estou eu a fazer aqui?

          Entretanto, o autocarro continuava o seu movimento lento em direcção desconhecida e que era impossível calcular, já que não tinha qualquer abertura para o exterior. Contudo, foi evidente que fez uma curva apertada e começou a descer por qualquer coisa que julguei ser uma rampa. A descida continuou, o veículo fez mais duas curvas e prosseguiu a sua marcha em piso já plano. Pouco depois, parou e o silêncio tornou-se ainda mais profundo. Subitamente começou-se a ouvir um toque estridente de telefone. Um toque que não parava de se fazer ouvir. Um toque que ecoava com cada vez maior intensidade por todo o interior do autocarro. De repente, acordei. Estava alagado em suor e no imediato percebi que o toque era mesmo real e provinha do telefone que estava ao meu lado, sobre a mesa-de-cabeceira. Levantei o auscultador e ouvi uma voz dizer:

   -- Bom dia, fala o recepcionista. É para o acordar, são sete horas. Ah, tenho uma notícia para lhe dar. Estamos em guerra. Ao que parece, estamos no início da Segunda Guerra Mundial.    

 

 

 

 

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