O MEU TIPO INESQUECÍVEL (7)
(O HOMEM TRANQUILO)
Manuel Leitão-Ramos era um indivíduo frustrado. E porquê? Por muitas e boas razões — porque provinha de uma família de remediados, porque era funcionário público, porque não tinha formação universitária, porque nascera e vivera numa terra sem horizontes.
Pertencer a um agregado familiar sem posses limitava-lhe bastante as ambições. Enquanto servidor do Estado, trabalhava com alguma tristeza como tesoureiro de uma repartição pública. Não ser licenciado em coisa nenhuma era uma falta no seu currículo que contribuía e muito para os seus desgostos pessoais. A pacatez da cidade era um outro factor que não o deixava feliz. Proferia com frequência esta frase: vivo numa terra sem futuro. O seu sonho era deixar em definitivo a cidade e ir viajar pelo mundo e também ir fazer qualquer coisa que o livrasse do insuportável tédio do seu trabalho diário.
Homem elegante, de bom aspecto e dominado por um narcisismo, por um egocentrismo, por uma arrogância e por uma vaidade sem limites, Leitão-Ramos fazia gala das suas origens britânicas (pelo Iado materno) e do seu domínio excepcional da língua inglesa, aprendida com a mãe e o avô. Contava inúmeras vezes histórias dos seus antepassados ingleses, centradas na Cornualha, e que remontavam à terceira ou quarta geração. Quando apareciam na cidade os poucos turistas de proveniência anglófona, lá estava ele a entabular conversação, às vezes de maneira forçada, e a exibir os seus pergaminhos na utilização do idioma desses conhecimentos fugazes. Procurava levar os seus interlocutores para os lugares mais movimentados da urbe ou para os mais frequentados, como cafés e esplanadas, e onde sabia que o seu papel de alguém conhecedor de uma língua estrangeira (coisa rara na cidade), ainda para mais em fluente troca de palavras, teria uma plateia garantida de basbaques sempre atentos, embora nada percebessem do que se dizia nesses colóquios literalmente estranhos.
Muitas vezes, na diminuta praia principal da cidade, a preferida pela elite do burgo, Leitão-Ramos colocava-se à sombra do toldo a ler livros escritos no idioma de Shakespeare, com a capa bem à mostra para que se pudesse ver o título estrangeiro. Numa das oportunidades em que tal aconteceu, era mais do que provável a obra não passar de um policial vulgar, da autoria de um certo Adam Taylor e intitulado Murder at Nighfall. Obra essa que o nosso personagem devorava ou fingia que devorava, deitado de costas na areia, indiferente ou aparentemente indiferente à família e aos amigos que o rodeavam.
No regresso das suas ocasionais viagens à metrópole, punha o máximo de empenho em dar as novidades todas que ele trazia, sobretudo dos filmes por ele vistos e que obviamente ninguém conhecia na cidade. Uma das películas que mais entusiasmo Ihe deu a relatar foi My Fair Lady — então em estreia universal — acerca da qual tinha quase sempre o cuidado de acrescentar que era uma adaptação de Pigmalião, uma peça de dramaturgia de George Bernard Shaw. Tratava-se de elementos colhidos no genérico da própria fita, sendo certo que, antes de ver esse trabalho do realizador George Cukor, de 1964, nunca tinha ouvido falar dessa mesma criação teatral nem tão-pouco sabia fosse o que fosse a respeito do seu autor. Também não se cansava de elogiar os magníficos dotes de “cantora” de Audrey Hepburn, a protagonista da citada película, mal sabendo ele que não era esta actriz a cantar de facto, mas sim Marni Nixon (1930-2016), uma verdadeira soprano californiana que ao longo da sua carreira fez várias dobragens — sem que isso fosse de forma expressa reconhecido nos créditos — de outras actrizes tais como, por exemplo, Deborah Kerr, em O Rei e Eu ou O Grande Amor da Minha Vida ou ainda Natalie Wood, em West Side Story. (By the way: também não é Rita Hayworth quem na realidade canta em Gilda, o famoso film noir norte-americano, de 1946, e dirigido por Charles Vidor — dessa vez a cantora-fantasma chamava-se Anita Ellis (1920-2015), uma canadiana de nascimento e americana por naturalização).
Mas voltemos a Leitão-Ramos. Já aposentado, e com uma magra pensão de reforma, o nosso herói foi obrigado pela Revolução a abandonar a terra e seguir para a metrópole, onde ele e a mulher viveram num modesto apartamento de duas assoalhadas, pobremente mobilado, e situado num subúrbio da capital e onde, alguns anos depois, deixou de vez este mundo. Foi já na recta final da sua vida que ele fez a tal viagem sempre sonhada mas que acabou por ser, além de inesperada, uma viagem que lhe proporcionou uma existência cheia de atribulações e carências (a côngrua não dava para muito) e no decurso da qual deve ter sentido profundamente a falta de estrangeiros com quem treinar e exibir o seu inglês ou da pequena praia onde lia ou dava-se ares de ler edições em língua inglesa de histórias policiais.
De provas dadas ou com provas dadas? Responde a Inteligência Artificial: “As duas formas são aceitáveis, mas têm aplicações ligeiramente diferentes:
-- De provas dadas: É a expressão mais comum quando funciona como um adjectivo para descrever alguém. Significa que a pessoa já demonstrou a sua competência ou valor anteriormente.
Exemplo: ele é um treinador de provas dadas.
-- Com provas dadas: Utiliza-se geralmente para reforçar que algo foi feito com base em evidências ou num histórico de sucesso.
Exemplo: Apresentou-se um projecto com provas dadas de eficácia.
Resumo: Se quiser dizer que alguém é experiente e fiável, utilize “de provas dadas”.
CONVERSAS EM TEMPOS DE GUERRA E DE INCERTEZAS
Os dois amigos estão num cruzeiro com destino às Américas. A conversa de hoje sucede ainda no início da dita viagem e tem lugar num dos muitos bares do navio. Tinham acabado de assistir ao último debate das presidenciais que as televisões transmitiram.
ERNESTO LIMA VITORINO: Gostei deste debate. Foi talvez dos melhores, senão mesmo o melhor dos 28. Que é que achas?
AFRÂNIO BRITO DA CUNHA. Estou de acordo contigo. Foi um debate vivo, forte, animado, emocionante. E vou mais Ionge: foi um duelo que, para o bem e para o mal, pode ter decidido o resultado definitivo das eleições presidenciais de 18 de Janeiro.
ERNESTO LIMA VITORINO: Porquê?
AFRÂNIO BRITO DA CUNHA: Por um lado, porque o almirante Gouveia e Melo poderá ter renascido ou reemergido, e reocupado o seu Iugar de vencedor destas eleições. Recordo que alguns comentadores e certas sondagens já o tinham dado como derrotado. Parece não haver dúvidas de que tais comentadores e sondagens cometeram algum exagero. E por outro Iado, o mesmo debate pode ter feito reavivar a hipótese destas eleições presidenciais ficarem resolvidas Iogo na primeira volta. E com a vitória de quem?
ERNESTO LIMA VITORINO: Do almirante Gouveia e Melo, é claro. Estou de acordo contigo. Além de Gouveia e Melo ter sido o mais acutilante e o mais certeiro dos dois candidatos, o Dr. Luís Marques Mendes teve uma noite para esquecer. Foi a pior das suas prestações. Falando em linguagem do boxe, Gouveia e Melo levou Marques Mendes várias vezes às cordas e mesmo algumas vezes ao tapete e muitas vezes ainda Mendes foi salvo pelo gong do (árbitro-)moderador José Alberto Carvalho. Marques Mendes estava nervoso, pálido, inseguro, gaguejante. Em algumas ocasiões, chegou a ficar sem argumentos para responder aos ataques de Gouveia e Melo. O almirante teve uma noite memorável. Foi a melhor das suas actuações enquanto debatente. Em resumo: foi um debate em que ficou claro quem é o vencedor e quem é o derrotado. E não é só isso. Também ficou claro que Marques Mendes foi pelo menos nos últimos vinte anos, nas palavras do almirante, um lobista e um facilitador de negócios, e, sejamos honestos, trata-se de profissões (ou actividades) que não recomendam ninguém para o mais alto cargo da Nação.
AFRÂNIO BRITO DA CUNHA: Admitindo que haverá uma segunda volta, e admitindo também que o almirante será o vencedor da primeira volta, quem pensas tu que Gouveia e Melo terá então como adversário? Digo-te já o meu palpite: André Ventura.
ERNESTO LIMA VITORINO: Concordo contigo. Esse parece ser o cenário mais provável. E em tal circunstância é mais do que certo que Gouveia e Melo será o vencedor. Resumindo: com ou sem segunda volta, o almirante será sempre o candidato vitorioso. Temos presidente da República.
AFRÂNIO BRITO DA CUNHA: Continuas a pensar que André Ventura deveria ter apoiado a candidatura de Gouveia e Melo?
ERNESTO LIMA VITORINO: Oh, sim. Completamente. Foi um erro crasso de André Ventura não ter apoiado Gouveia e Melo e, ao invés, ter-se ele próprio apresentado como candidato a presidente da República. Das duas, uma: ou André Ventura vence as eleições presidenciais e não será primeiro-ministro e o Chega não tem mais ninguém de jeito para propor para este lugar e também para dirigir a campanha eleitoral das próximas eleições legislativas, ou perde as mesmas eleições presidenciais e, nesse caso, essa será uma derrota — quiçá humilhante — que o Chega e André Ventura terão de averbar no seu curriculo, o que seria sempre de evitar, tratando-se sobretudo de um partido e de um líder em ascensão. Em qualquer das duas situações, o Chega e André Ventura perdem sempre.
AFRÂNIO BRITO DA CUNHA: Tens razão. Estou no entanto convencido de uma coisa. Os militantes e apoiantes do Chega terão a lucidez suficiente para fazer um raciocínio igual ao que acabaste de expor e não irão votar em André Ventura, mas sim em Gouveia e Melo. Perderão um presidente da República? Sim, mas poderão ganhar um primeiro-ministro e, para o Chega — ou para qualquer outro partido -- chefiar o Executivo é de longe mais importante do que ser presidente da República. Já gora, e para terminar por hoje esta conversa, gostava de desfazer uma narrativa que corre por aí e segundo a qual António José Seguro poderia passar à segunda volta — e provavelmente vencer estas eleições presidenciais — com os votos dos restantes candidatos da esquerda se estes desistissem a seu favor. Ora bem, como eu disse, isso não passa de uma mera narrativa, uma vez que quem assim pensa, está a esquecer que a esquerda toda foi a grande derrotada nas últimas eleições legislativas, tendo o Partido Socialista passado a ser a terceira força partidária em número de deputados. Não há volta a dar — com ou sem apoio da esquerda toda, na lista dos quatro candidatos principais, António José Seguro ficará sempre em último lugar. Full stop.