CONVERSAS EM TEMPOS DE GUERRA E DE INCERTEZAS
Os dois amigos continuam deambulando pelo Sul do país e a conversar sobre tudo e mais alguma coisa. O diálogo de hoje ocorre em casa de uma família das suas relações de amizade e onde foram almoçar.
AFRÂNIO BRITO DA CUNHA: No nosso último encontro, falámos acerca do centenário de Mário Soares, a propósito do contragolpe do 25 de Novembro, e não tivemos tempo para abordar um outro centenário, o do nascimento de Amílcar Cabral (1924-1973). O que é que podes dizer agora acerca desse tema?
ERNESTO LIMA VITORINO: O que se me oferece dizer sobre esse assunto, ao contrário do que sucedeu com Mário Soares, não é bem uma homenagem, mas simplesmente a constatação de factos que se relacionam com a figura de Amílcar Cabral. Vejamos:
Existe da parte de certos nacionalistas cabo-verdianos (e não da parte dos guineenses, para os quais, de resto, Amílcar Cabral é um assunto tabu) uma estranha idolatria por Amílcar Cabral, (quando muito um herói de cariz meramente partidário que os mesmos nacionalistas cabo-verdianos sempre quiseram impor como herói nacional), sendo certo que se trata de alguém que não nasceu nem morreu em Cabo Verde. Onde, aliás, viveu pouquíssimos anos da sua relativamente curta vida. Onde pouco trabalhou ou ganhou o sustento. Onde deixou pouquíssimos escritos (e não se lhe conhece sequer um livro). Onde um número ínfimo de pessoas o conheceu. Onde não deixou amigos. Onde não constituiu família. Onde nem tão-pouco repousam os seus restos mortais. Estamos a falar de um homem que, entre outros gritantes fracassos, não conseguiu unir a Guiné-Bissau e Cabo Verde, apesar de esse ter sido sempre um dos seus objectivos e desejos mais veementes e não obstante o nome do partido (da sua autoria) ter sido, e ainda é, Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC). Pelo contrário, os guineenses e os cabo-verdianos (cujas péssimas relações entre si, a todos os níveis, são uma história antiga que remonta aos tempos coloniais) desuniram-se ainda muito mais durante e depois da luta armada pelas suas independências. A este propósito, houve quem dissesse, e muito bem, que a Guiné-Bissau é uma espinha atravessada na garganta dos cabo-verdianos. Em boa verdade, a Guiné-Bissau e Cabo Verde são hoje dois países separados por um passado, uma língua e um dialecto comuns e cujas relações diplomáticas primam por simples e gélidas formalidades. Em resumo: um homem assassinado na Guiné-Conacri pelos seus conterrâneos e companheiros de armas guineenses e reivindicado como herói pelos cabo-verdianos. Estranha idolatria.
AFRÂNIO BRITO DA CUNHA: Mudando de assunto. Ouvi-te há dias falar em duas questões que me deixaram a meditar.
Eis as questões: Falsos autodidactas e árvores genealógicas. Queres explicar com mais detalhes o que é que tu querias dizer com essas questões?
ERNESTO LIMA VITORINO: Sim, com todo o gosto e com toda a certeza. No primeiro caso (falsos autodidactas) a questão é simples. Trata-se de pessoas (homens, em especial) que se julgam autodidactas, e nas suas terras consideradas como tais, quando estão muito longe de o ser. Sobretudo se compararmos essas pessoas com os verdadeiros autodidactas e que se tornaram mundialmente famosos. Queres exemplos de autodidactas célebres? Ei-los, e a lista não é nem pretende ser exaustiva: começo pelo polímata, Leonardo da Vinci, e que, entre outras inúmeras actividades, se destacou como pintor, escultor, cientista, arquitecto, inventor, etc., etc.. A seguir, vem Jean-Jacques Rousseau, filósofo e um dos pensadores cuja obra, para o bem e para o mal, influenciou directamente a Revolução Francesa. Depois, Abraham Lincoln, 16º. Presidente dos Estados Unidos e um dos homens com grande destaque na abolição da escravatura no seu país, e, em seguida, Sebastião José de Carvalho e Melo (Marquês de Pombal e, para o melhor e para o pior, Secretário de Estado do Reino de Portugal, ao serviço do rei D. José I). Os seguintes grandes escritores: Charles Dickens, Henry Miller, Alberto Moravia, Ernest Hemingway, José Saramago, Fernando Pessoa. Os cineastas: Charles Chaplin, Alfred Hitchcock, Orson Welles, Walt Disney, François Truffaut, Stanley Kubrick, Woody Allen. O industrial e inventor, Henry Ford. O fundador da Microsoft e um dos homens mais ricos do mundo, Bill Gates. Perante estes autodidactas e gigantes da arte, da cultura, da ciência, da técnica, da política e do pensamento, os mencionados falsos autodidactas (vivos e mortos, acrescente-se) não passam de meros pigmeus. Mas, lá está: Em terra de cegos, quem tem um olho é rei. Voici tout.
AFRÂNIO BRITO DA CUNHA: E sobre árvores genealógicas, o que me tens a dizer?
ERNESTO LIMA VITORINO: Descobri que, em Cabo Verde, existe um nativo que se tem dedicado, de há uns anos a esta parte, a fazer árvores genealógicas dos seus conterrâneos e a publicá-las na Internet. E quem é esse personagem? Eis a resposta: o dito-cujo é um pateta, um falhado, um medíocre, um atrevido, um pretensioso que, com tal iniciativa, só almeja duas coisas: ficar bem na fotografia e fazer prova de vida perante os seus patrícios. Já que esse Zelig das ilhas (mais um, entre muitos outros) não sabe fazer mais nada, faz...árvores genealógicas. E digo-te mais: antes de tudo, o que no fundo esse sujeito pretende não é propriamente fazer árvores genealógicas, mas, sim, falar de árvores mitológicas. Sim, árvores mitológicas. Porquê? Porque basicamente o objectivo dele é alimentar o narcisismo patológico dos seus compatriotas (incluindo o seu próprio e monstruoso narcisismo), reforçando, em primeiro lugar, os pequenos mitos já existentes (vivos e mortos) sobretudo na cidade onde ele nasceu e cresceu (a capital desse país e arredores) e, depois, criando novos mitos da sua própria lavra. E que mitos são esses? São mitos desportivos, políticos, (supostamente) literários, artísticos, musicais, académicos, comerciais, profissionais, etc., etc.. Numa palavra, são mitos escolhidos principalmente entre a elite do seu país, com a estranha ausência, no entanto, do falecido Luís Cabral (ao contrário do seu meio-irmão, o muito badalado Amílcar Cabral) e ex-presidente da República da Guiné-Bissau, deposto por um golpe militar, em 14 de Novembro de1980, golpe esse liderado pelo guineense, Nino Vieira, e que teve como consequência imediata, entre várias outras, o fim literal e definitivo da presença dos cabo-verdianos naquela antiga colónia portuguesa da Costa Ocidental Africana. E mais: o golpe de 14 de Novembro (de 1980) foi o segundo e último episódio de um movimento mais vasto dos guineenses contra os cabo-verdianos e que, na prática, teve o seu início em 20 de Janeiro de 1973, com o assassinato, nessa mesma data e na Guiné-Conacri, de Amílcar Cabral justamente às mãos de elementos pertencentes à ala guineense do PAIGC. Mas voltemos aos (falsos) mitos que as árvores genealógicas em questão pretendem homenagear. Importa salientar que são mitos tratados familiar e carinhosamente (um advérbio muito apreciado entre os seus conterrâneos) e até mesmo de cujas alcunhas ou nicknames (quando os têm) somos devidamente informados. Digo bem: pequenos mitos porque, na sua enorme maioria, são mitos locais à (diminuta) escala do país que os alberga. É caso para dizer que cada país tem os mitos, e os seus criadores, que merece. Mas mesmo assim tudo indica que os visados estão conformados (e porventura agradecidos) face a esses testemunhos aparentemente simpáticos de tais mitologias. É uma razão para dizer que com papas e bolos se enganam os tolos. Mas esse não é o único problema dessas árvores ditas genealógicas. Há mais problemas. Desde Iogo, e para além de estarmos, em grande medida, a falar de mentiras inventadas pelo autor dessas árvores genealógicas, em particular em matéria da paternidade desconhecida ou incógnita (chamando pai a tudo e todos, fiado única e exclusivamente em rumores ou boatos e mesmo perante o silêncio sepulcral dos assentos de nascimento a tal respeito) e de mães solteiras [dois flagelos tenebrosos que, a par da ladroagem, do adultério (nos dois sentidos), da bigamia e da poligamia disfarçadas, ensombram os naturais desse país] o mesmo fazedor dessas mesmas árvores dedica-se afanosamente a encobrir e/ou a deturpar verdades inconvenientes nos citados campos da paternidade desconhecida ou incógnita e de mães não casadas, e a tratar as inumeráveis ligações sentimentais ilegítimas (vulgo mancebias ou concubinatos) com eufemismos como partnership (sim, em inglês que é mais chique), ou às vezes apelidando de companheiros os amantes, ou ainda utilizando esta expressão delirante que, só por si, resume todo um programa: Fulano teve filhos com Beltrana (e vice-versa). Mas o problema maior ainda não é nada disto. O problema maior será a utilização indevida dos dados pessoais de milhares de indivíduos, crianças e adultos (com direito a fotografias e tudo) vivos e mortos, que esse cavalheiro, consciente ou inconscientemente, com ganhos financeiros ou não, anda a espalhar na Internet e que muitos dos titulares dessas árvores, tácita ou expressamente, consentem. Eu disse utilização indevida? Sim, utilização indevida porque praticada à revelia dos passivamente envolvidos nessas operações genealógicas. E utilização por quem? Por milhares de empresas industriais, comerciais e de serviços à escala planetária e operando sobretudo em plataformas online. E para quê? Por um lado, para uso próprio dessas empresas nas suas estratégias de angariação de clientes, e, por outro, para fazerem negócios com tais dados pessoais, vendendo-os a este, àquele e aqueloutro. Em três palavras: para ganharem dinheiro. Mas não são só essas entidades, aliás legítimas, que se apropriam ilegitimamente dos referidos dados pessoais. O pior é quando são os cibercriminosos a apossarem-se dos dados pessoais dos outros, como os tais escolhidos para fazerem parte das árvores mitológicas, perdão, das árvores genealógicas que esse indígena cabo-verdiano se vem encarregando triunfalmente de exibir por toda a Internet. Eis a lista (não exaustiva) do que os cibercriminosos são capazes de fazer, e fazem, com os dados pessoais de terceiros e que, repetimos, podem ser os visados das supostas árvores genealógicas a que me venho referindo: roubo de identidade, fraudes financeiras, abertura de contas bancárias (em nome de vivos e de mortos), transferências bancárias, solicitação de empréstimos, extorsão, chantagem, ataques cibernéticos, venda em sites e fóruns ilegais ou não rastreáveis, redes sociais, ataques de phishing e engenharia social, vazamento de dados, etc. Para quê mais palavras?
AFRÂNIO BRITO DA CUNHA: E que tal se falássemos agora da nossa actualidade política, há umas semanas em permanente efervescência?
ERNESTO LIMA VITORINO: Sim, dizes bem, actualidade política em permanente efervescência. Contudo, efervescência que as próximas eleições legislativas de 18 de Maio poderão normalizar. Normalizar, como? O mais certo será com o reforço da direita e mais uma derrota quase inevitável da esquerda. As turbulências dos onze meses de governação da Aliança Democrática testemunharam à exaustão que só haverá estabilidade política no país com coligações à direita, ao centro e (menos provavelmente) à esquerda. Em princípio, só o PSD estará em condições de decidir tais coligações, quer ao centro quer à direita. Ou seja, aliando-se ao PS, para um Bloco Central, ou ao Chega e IL para uma eventual geringonça de direita. Resumindo: os portugueses, à semelhança do que aconteceu na Madeira, irão repetir o que já tinham manifestado nas eleições de 10 de Março do ano passado: quererão mais uma vez pôr no poder a direita e/ou o centro, e a esquerda na oposição e, desta vez, certamente sem poderes de coligações negativas capazes de apear o governo sobretudo se este for de direita.
Não quero encerrar esta conversa sem uma referência às eleições presidenciais de 2026. Ainda é relativamente cedo para quaisquer conjecturas sobre as possibilidades dos candidatos ou protocandidatos, mas parece que está escrito nas estrelas que o próximo presidente da República Portuguesa há-de ser o candidato que em termos formais ainda não o é, mas tudo leva a crer que o será tão breve quanto oportunamente recomendável: o almirante Gouveia e Melo. O homem reúne todas as condições para alcançar esse desiderato. Mais: tal sucederá logo na primeira volta. O que está escrito nos astros tem muita força. Ponto final.