FLAGRANTEDELEITE

CADERNOS DO SUBTERRÂNEO (24)

 


-- Porque é que não vais para a tua terra?


-- Mal por mal, antes Portugal.


 


CONVERSAS EM TEMPOS DE GUERRA E DE INCERTEZAS


(A ESCOLHA DE HOBSON)


     A conversa de hoje volta a ser a três, uma vez que os dois amigos deram mais uma entrevista, desta feita a uma jornalista freelancer. O encontro ocorreu num dos locais preferidos dos dois reformados: o lobby de um hotel, no caso, o lobby de uma conhecida unidade hoteleira do Sul do país.


Jornalista: Tal como ficou previamente acordado entre os três, esta entrevista vai ter um âmbito o mais lato possível, quer em termos de assuntos a abordar, quer em termos geográficos. Por isso, começo pela política nacional: o que pensam sobre a nossa actualidade política, num momento de férias e de intervalo entre duas eleições: as legislativas de 18 de Maio e as autárquicas que terão Iugar em 12 de Outubro próximo?


ERNESTO LIMA VITORINO: Posso ser eu a começar?


Jornalista: Por mim, tudo bem.


AFRÂNIO BRITO DA CUNHA: Por mim também.


ERNESTO LIMA VITORINO: Então, vamos a isso. Vivemos uma situação a todos os títulos complexa. Quer em termos nacionais quer, e muito mais, em termos internacionais. No plano nacional, os resultados das referidas eleições de 18 de Maio originaram quase que uma recomposição do xadrez político português. Por um Iado, deu-se o reforço da direita e do centro-direita partidários e, por outro, verificou-se um notório enfraquecimento da esquerda e da extrema-esquerda. Com a vitória relativamente confortável da Aliança Democrática (AD), o Governo de Luís Montenegro ficou mais forte e consolidado, provando que as eleições antecipadas foram uma jogada certeira do líder do PSD. Nunca mais se falou da Spinumviva e matérias correlativas. É certo que não se trata de um Governo suportado por uma maioria absoluta de deputados, mas isso é uma boa razão para Luís Montenegro negociar pontualmente com os dois maiores partidos da oposição — o Chega e o PS. E tem-no feito com mais ou menos sucesso. No entanto, existe neste ponto uma má notícia vinda de onde menos se esperava — do Tribunal Constitucional (TC). E o que fez esse órgão judicial? Para já, chumbou em questões muito importantes a Lei de Estrangeiros que, como se sabe, foi aprovada por uma maioria expressiva de deputados e visava (ainda visa) pôr termo ao caos na entrada descontrolada dos imigrantes no país. (Entrada descontrolada dos imigrantes herdada dos Governos de António Costa). Esta decisão do TC, que é um claro sinal da sua parte do que teremos daqui em diante, obriga a repensar a composição dos seus juízes e, bem assim, em sede e momento próprios, o seu funcionamento. O que aconteceu agora traz-nos à memória os famosos chumbos do TC às medidas do Governo de Passos Coelho impostas pela Troika e que tinham como objetivo reduzir as despesas do Estado em matéria de pensões e afins. Vivíamos em tempos de austeridade. Vítor Gaspar, o então ministro das Finanças, foi forçado em alternativa a recorrer a um enorme aumento de impostos, sobretudo em termos de IRS sobre a classe média. Em consequência dessa medida fiscal, indirectamente originada pelo TC, ainda hoje a classe média sofre os seus efeitos drásticos, uma vez que a carga fiscal por ela suportada nunca mais voltou à normalidade, mantendo-se ainda em níveis assustadoramente elevados.


         Voltando ao que se passou com a esquerda, nas eleições de 18 de Maio, o PS sofreu uma derrota pesada, a maior da sua história. Derrota que o atirou, pela primeira vez, para a triste condição de terceira força partidária, em número de deputados, que provocou a sua ultrapassagem pelo Chega, que fez diminuir obviamente a sua influência política, que o fez acordar de uma enorme bebedeira esquerdista e que, enfim, o obrigou a mudar de líder. Diga-se de passagem que José Luís Carneiro merecia um melhor PS e não o PS que recebeu. Recebeu um PS em momento de penosa ressaca. Um PS em momento de difícil recuperação. Além de que tem de enfrentar a oposição interna, que se encontra debilitada, mas não morta. Aliás, aceitar os candidatos autárquicos escolhidos por Pedro Nuno Santos foi uma espécie de vitória póstuma deste último sobre o seu sucessor. Veremos que mais vitórias póstumas de Pedro Nuno Santos esperam José Luís Carneiro. Veremos quais serão as consequências para o PS o ter avançado para as autárquicas com os mesmos candidatos esquerdistas que colocaram o partido na péssima situação em que ele se encontra.


         Falando ainda da esquerda, saída das mesmas eleições legislativas, convirá não esquecer os desaires da extrema-esquerda (com a excepção não surpreendente do Livre), sobretudo, do resultado desastroso do Bloco de Esquerda (BE), reduzido agora ao osso, isto é, reduzido a uma única deputada, Mariana Mortágua. Ela colocou o partido numa calamitosa situação e, durante a campanha eleitoral, de nada Ihe valeu o lenço palestiniano sobre os ombros, e ostensivamente exibido, ou sequer a ajuda que Ihe deu o trio de dinossauros do partido (Louçã, Rosas & Fazenda). Pelo contrário, estes dois factores devem ter contribuído, e muito, para o afundamento eleitoral do BE. Não se percebe como é que os seus correligionários ainda mantêm Mariana Mortágua à frente dessa formação partidária. Ou como é que ela própria não toma a iniciativa de se demitir. Até parece que, depois de ter sido ignominiosamente derrotada, ela ficou ainda mais frenética do que na realidade já é. Ou talvez se compreenda tal frenesim. O BE (a par do PCP e do PAN) é cada vez mais uma enorme irrelevância partidária presente no Parlamento e no país. Mais uma ou duas eleições legislativas porão fim definitivo à maior parte da extrema-esquerda no Parlamento. Goodbye.


Jornalista: E o Chega?


AFRÂNIO BRITO DA CUNHA: Ah, o Chega! Ah, o Chega! Em seis anos, o Chega multiplicou por sessenta o número dos seus deputados; em seis anos, o Chega transformou-se na segunda força parlamentar; em seis anos, o Presidente do Chega, André Ventura, tornou-se o líder da Oposição. Resumindo: em seis anos, o Chega provou ser o fenómeno político, o furacão partidário que, desde os seus inícios, prometeu que viria a ser. Mais ainda: o Chega alcançou uma vitória estrondosa nas eleições legislativas de 18 de Maio, com os votos de todos os quadrantes ideológicos, principalmente da esquerda e da extrema-esquerda. Quer a esquerda goste, quer não goste, são votos dos portugueses colocados nas urnas --democraticamente, livremente, avassaladoramente, desassombradamente.


        O Ernesto Vitorino disse há pouco, e concordo com ele, que, com mais uma ou duas eleições legislativas, a maior parte da extrema-esquerda deixará de existir no Parlamento. Pois bem! Digo eu agora o seguinte: com mais uma ou duas eleições legislativas, em particular se forem eleições antecipadas, que são o terreno onde o Chega melhor funciona, André Ventura será o primeiro-ministro de Portugal. Ponto final, parágrafo.


Jornalista: E que tal se falassem um pouco do que nos reserva o futuro?


ERNESTO LIMA VITORINO: O futuro político?


Jornalista: Sim, pode ser.


ERNESTO LIMA VITORINO: Estou de acordo com a previsão do meu amigo Afrânio e acrescento que o xadrez político-partidário terá a curto ou a médio prazo a seguinte configuração: uma direita largamente dominada pelo Chega, um centro-direita ocupado pelo PSD e a Iniciativa Liberal, e o sobrante, ou seja a esquerda, ficará a mando do PS e, em muito menor escala, do Livre.


Jornalista: E o que há a dizer das autárquicas que terão Iugar a 12 de Outubro e, já agora, das presidenciais de 2026?


AFRÂNIO BRITO DA CUNHA: No que toca às autárquicas, penso que o actual quadro político-partidário manter-se-á no essencial ou até com um novo reforço da direita e do centro-direita. A esquerda voltará a ser derrotada.


ERNESTO LIMA VITORINO: Quanto às presidenciais, apesar da desmesurada multiplicação de candidatos, e talvez por isso, as possibilidades de o almirante Gouveia e Melo vir a ser o próximo presidente da República mantêm-se intactas e previsivelmente sem necessidade de uma segunda volta. Porquê? Porque -- para além das inegáveis qualidades pessoais e políticas de Gouveia e Melo -- são muito duvidosos os apoios em geral reunidos pelos restantes candidatos e em especial os apoios partidários. Ora vejamos: o PSD está dividido quanto ao apoio ao candidato Luís Marques Mendes. O PS não fez ainda sequer a sua escolha. António José Seguro, que se apresentou há já algum tempo como candidato, anda por aí à deriva e sem saber se terá ou não a aprovação do seu partido — o PS. E se por acaso a vier a ter, não será por unanimidade. Em tal circunstância, os militantes do PS, e os eleitores em geral, estariam colocados perante o dilema da escolha de Hobson. O PS, ao que parece, esperava resolver o difícil problema da escolha do seu candidato com a candidatura de António Sampaio da Nóvoa, o que, como se sabe, não aconteceu. O PS encontra-se assim numa situação de dúvida, de incerteza, de hesitação no tocante à candidatura presidencial, correndo o risco de mais uma vez não sufragar expressamente qualquer solução. O Bloco de Esquerda e o Livre também estavam à espera do chapéu de chuva de Sampaio da Nóvoa e agora tudo indica que se servirão da prata da casa. Ou seja, o BE terá como candidata, Catarina Martins, uma fraca escolha, convenhamos, e o Livre vai referendar o seu candidato. Finalmente, o Chega. Também ainda não decidiu sobre quem incidirá a sua opção, e se me é permitido fazer um alvitre a André Ventura, dir-lhe-ia que, neste capítulo, teria todos os seus problemas resolvidos se apoiasse o almirante Gouveia e Melo. Além de tudo o mais, tal apoio poderia ser o início de uma bela amizade.


Jornalista: Vamos agora analisar a situação política internacional, com o foco nas duas guerras que mais preocupam o mundo: a invasão da Ucrânia e o conflito no Médio Oriente.


ERNESTO LIMA VITORINO: Vou falar sobre a guerra na Ucrânia e o Afrânio encarregar-se-á da outra. Em ambos os casos, há uma necessidade premente de se negociar e alcançar a paz. São guerras que já duram demasiado tempo entre nós, com as óbvias consequências negativas. No caso da Ucrânia, o esforço deve ocupar todos os países, entidades e continentes directa ou indirectamente envolvidos, a saber: os Estados Unidos e a NATO, a Rússia, a União Europeia e, claro, a Ucrânia. Sendo uma negociação, nenhuma das partes implicadas poderá sair totalmente vencedora. Nem completamente derrotada. Terá de haver cedências das duas partes, haja o que houver. Aconteça o que acontecer. Não havendo paz, e progredindo a guerra com a ferocidade que se tem verificado ultimamente, é de se antever cenários muito mais graves e nem vale a pena sequer entrar em pormenores.


AFRÂNIO BRITO DA CUNHA: Quanto ao conflito no Médio Oriente, vou ser breve. E ao contrário do que disse o meu amigo Ernesto, neste caso, não vejo que seja possível qualquer negociação nem me parece oportuno discutir o problema dos dois Estados. Trata-se de uma questão que para já deve ser adiada sine die. Nesta altura do conflito, há uma pergunta que pode e deve ser colocada. Já que os palestinianos tanto se queixam dos estragos causados pelos ataques dos israelitas, na Cidade de Gaza, porque é que o Hamas, militarmente cada vez mais impotente, não depõe as armas e devolve os reféns que ainda estão em seu poder?


        Tais gestos vindos do Hamas, que afinal de contas são os objectivos primordiais de Israel, poriam fim imediato aos ataques deste último. Tudo o resto da parte dos palestinianos, incluindo a propaganda da fome que alegadamente grassa em Gaza, mais não é do que chantagem incentivada na sombra pelo Hamas e que os seus apoiantes da extrema-esquerda ocidental acolhem com entusiasmo e com a qual tentam convencer os mais ingénuos.


Jornalista: Para terminar uma pergunta dirigida a Ernesto Lima Vitorino e que provavelmente interessa aos leitores. Qual o significado do dilema de A Escolha de Hobson?


ERNESTO LIMA VITORINO: Eis a resposta e sem ofensa: vão ao Google.

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