A VAIDADE SEGUNDO W. SOMERSET MAUGHAM
Qualquer pessoa sensata sabe que a vaidade é a paixão mais devastadora, mais universal e mais inextricável das que afectam a alma de um homem, e só a própria vaidade faz com que neguemos o seu poder. É mais consumidora do que o próprio amor. Felizmente, com o avançar dos anos, podemos deixar para trás o terror e a servidão do amor, mas nem a idade nos consegue libertar do domínio da vaidade. O tempo pode aliviar a dor do amor, mas só a morte pode silenciar a angústia da vaidade ferida. O amor é simples e não procura subterfúgios, mas a vaidade engana-nos com uma centena de disfarces. É parte essencial de todas as virtudes: é o fundamento da coragem e a força da ambição; dá constância ao amante e resistência ao estoico; adiciona combustível ao fogo do desejo de fama do artista e é, ao mesmo tempo, o apoio e a compensação da integridade do homem honesto; até se oculta, cinicamente, na humildade do santo. Não há como lhe escapar, e se tentarmos esforçar-nos para nos proteger contra ela, usará esse mesmo disfarce para nos apanhar. Somos indefesos contra o seu ataque porque não sabemos de que lado desprotegido nos atacará. A sinceridade não consegue proteger-nos das suas ciladas, nem o amor da sua zombaria. (...) Por fim é a vaidade que faz com que o homem suporte a sua triste sorte.
In ASHENDEN -- O AGENTE BRITÂNICO, (1928) Edições ASA, 1ª. Edição, Novembro de 2021, pgs. 206/207.
O MEU TIPO INESQUECÍVEL (8)
(UM HOMEM SÉRIO)
Carlos Brito estava bem perto dos sessenta anos de idade. No entanto, aparentava ser mais velho, devido, talvez, aos seus cabelos grisalhos e a uma testa bastante pronunciada. Encarnava com total perfeição o que se podia classificar de um burocrata nato. Mostrava-se resignado e satisfeito com a sua situação pessoal, além de patentemente orgulhoso da sua categoria profissional de chefe de secção. Ascendera a este posto ao fim de mais de trinta anos de uma carreira recheada de concursos, transferências de um lado para outro, relatórios, inspecções e quejandos. Metódico e rotineiro, como todo o burocrata que se preza, a sua actividade e os seus gestos de um dia, até mesmo os mais banais, reproduziam-se com exactidão nos dias subsequentes. Quase nada mudava na vida desse homem. Nem o pensamento nem as obras. Começava o período de trabalho por despir com todo o cuidado o casaco que pendurava, também com todo o cuidado, no bengaleiro. Em seguida sentava-se sem pressa à secretária e iniciava o ritual da limpeza das lentes dos óculos de uma forte graduação, própria de uma acentuada miopía. Com esta delicada operação despendia uns bons quinze minutos. Depois arrumava, com a devida minúcia, a secretária ao ponto de alinhar com rigor geométrico os livros e os processos com as arestas da carteira. Por fim, dava início ao trabalho elaborando umas notas, com a mesma calma e lentidão, as quais, uma vez concluídas, eram entregues ao contínuo que as levava à dactilografia. Pouco antes de terminado o período de trabalho, colocava-se de pé, em frente de uma das janelas donde apreciava com indisfarçável melancolia a bela paisagem marítima que dali se avistava. Um hipotético observador, quiçá um dos seus subordinados da secção que ele chefiava, que, por acaso, o contemplasse discretamente, como que a vigiá-lo, e ao vê-lo naquela pose, tudo menos burocrática, perguntar-se-ia a si próprio se no íntimo de Carlos Brito não existiria escondido um outro homem algo diferente que, ao fim e ao cabo, nada tinha a ver com o funcionário zeloso e cumpridor a que as circunstâncias da vida conduziram, contrariando tristemente uma qualquer vocação bem mais interessante. Quem sabe se aquele olhar sonhador, em direcção ao mar, não indiciava um desejo bem guardado, cujas origens se desvaneciam nos idos da sua juventude, de enveredar, por exemplo, pela carreira de oficial da marinha mercante, ao serviço de um transatlântico de luxo em viagem por esse mundo fora, em vez de ter ficado, como acabou por ficar, na aridez entediante, enfadonha e rotineira de um simples funcionário público encalhado numa minúscula e pobre terra, perdida no meio do oceano? Quem sabe se em todos nós não haverá um sonho oculto ou disfarçado e se essa provável vocação frustrada de Carlos Brito não seria o sonho que porventura, com muito esforço, ele acabou por abafar, apresentando-se sempre como um orgulhoso servidor do Estado? Quem sabe se esse observador virtual de Carlos Brito não seria, ele próprio, também assaltado por essa mesma dúvida e que o levaria a desejar fugir, de forma quase obsessiva, de uma qualquer vocação falhada e acabar por se libertar de algum trabalho e ambiente medíocres em que eventualmente tivesse ido cair?
SEIS PERSONAGENS À PROCURA DE UM DESTINO
Eduardo Semedo era um empresário com fama e proveito de ser um femeeiro inveterado. Ao que se dizia, tinha mulheres em todos os bairros suburbanos da cidade e era público que vivia com a amante principal no centro da urbe e, para os padrões locais, numa casa bastante confortável.Tratava-se de Matilde Vieira, uma europeia loira e bonita a rondar os seus trinta anos de idade. Corriam rumores de que ela fora resgatada de um bordel por Eduardo Semedo, numa das suas últimas viagens à capital do Império. Esta surpreendente revelação teria partido de Hermínio Osório, um engenheiro acabado de se formar na metrópole e recém-chegado à cidade. Osório, em tom confidencial e em conversa com dois amigos, jurou a pés juntos ter visto Matilde Vieira no salão de um conhecido lupanar da capital, dirigido com pulso firme por uma tal Dona Rute. Osório disse mais e contou uma longa história, começando pelo princípio: só não levou Matilde Vieira para o quarto porque, no último instante, foi vorazmente ultrapassado por um sujeito qualquer. Teve que se contentar com uma alternativa, também interessante, mas nada que se comparasse com a Matilde. Que lhe ficou, de resto, atravessada. De tal forma que, duas semanas depois, e não antes por causa de um exame semestral que tinha entre mãos, voltou ao prostíbulo decidido a filar a loira desse por onde desse. Mas mal podia admitir que uma grande desilusão o aguardava. Com efeito, ao entrar no salão, notou logo, com alguma preocupação, que só estavam à vista três profissionais e nenhuma delas era a que procurava. Pensou no imediato se ela não estaria ocupada e isso não augurava nada de bom. É que não se imaginava a servir-se de qualquer espécie de mulher logo a seguir a outro homem, sobretudo quando tinha conhecimento directo dessa operação de troca imediata de homens a que a mesma mulher se submetera. Isso bolia e muito com os seus escrúpulos. Sabia que com as pegas, nenhum macho detinha a exclusividade nem mesmo os chulos. Todos tinham de esperar a sua vez e o intervalo entre dois clientes tanto podia durar dez minutos como duas horas ou mais. Tratava-se de regras imperativas da actividade e que nada ou ninguém podiam alterar. Era pegar ou largar. A prostituição resumia-se sempre nesta definição: longas filas de homens, que não se viam nem se conheciam, cada um aguardando o seu momento de prazer carnal comprado às mesmas mulheres. Osório não ignorava esse lado algo degradante e sórdido do negócio, senão de todo o negócio em si, e isso de certo modo pesava-lhe na consciência. Mas a fraqueza da carne e a facilidade do sexo simplesmente pago falavam mais alto e faziam-no esquecer tudo. Quase que se tornava impossível libertar-se daquela atracção diabólica que as prostitutas exerciam sobre ele.
Nesse momento, apareceu na sala a Dona Rute, pendurada a uma enorme boquilha com um cigarro na ponta. Mulher de algum porte físico, acentuado por um vestido preto, solto e comprido, trazia estampada na cara a experiência de toda uma vida já longa e com a dimensão da sua estatura somática. Antiga prostituta, em fim de carreira, a Dona Rute decidiu estabelecer-se por conta própria e passou a ser patroa. Alguns clientes já mais maduros, que lhe visitavam a "casa", lembravam-se dela em alguns bordéis da cidade quando ela ainda "trabalhava" a soldo de outrem e fitavam-na com alguma intensidade à espera de serem reconhecidos. Mas a Dona Rute fazia vista grossa a esses sujeitos, aos quais se referia com algum azedume, apelidando-os de putanheiros encartados, apesar do dinheiro que esses mesmos putanheiros lhe davam a ganhar. A Dona Rute, sempre que podia, evitava misturar o seu passado com o seu presente, pois, para ela representavam coisas completamente diferentes. Contudo, lá no fundo, não se via uma diferença assim tão grande entre as duas realidades. No passado, obtinha o proveito vendendo o próprio corpo. Agora a vantagem resultava do comércio dos corpos de outras mulheres. Ou seja, tudo se cifrava num único negócio, o do corpo. O próprio ou o alheio.
Enfim, a Dona Rute, em toda a sua imponência um tudo-nada intimidante, estava perante Hermínio Osório. Este tomou logo a palavra e quase em sussurro perguntou por Matilde Vieira, descrevendo-a pelas características físicas, uma vez que lhe desconhecia o nome. A proxeneta, quando se apercebeu a quem Osório se referia, respondeu no seu tom de voz de cana rachada e com ar maternal, embora nunca tivesse sido mãe e, quem sabe, talvez até por isso: "Ah, já sei de quem se trata. É a Matilde Vieira, e olhe que tem muito bom gosto. Mas, filho, lamento não lhe dar uma boa notícia. Essa pequena deixou a casa há coisa de uma semana. Foi para as Áfricas e acredite que me vai fazer alguma falta. Era muito procurada. Pudera! Uma brasa daquelas! " Ao ouvir falar das "Áfricas" , Osório sentiu de súbito a curiosidade aguçada, em razão das suas origens africanas, e inquiriu sem dissimular a ansiedade: "Mas para que lugar de África? " A Dona Rute ripostou com um certo enfado: "Olhe, filho, se quer que lhe diga, nem me lembro já. Só sei que é uma das nossas Áfricas e que andou por cá um morenaço simpático com uma fúria louca por elas todas e elas por ele. Mas embeiçou-se foi pela Matilde e ela, claro, também não se fez rogada. Para encurtar a conversa: em dois ou três dias decidiram viver um com o outro e foram-se embora juntos. Mas a Matilde já tem substituta, por sinal, uma garota também muito jeitosa. Chama-se Ana, e veio do Norte. Está ver aquela morena além ao canto? É ela. Quer que lhe apresente a pequena? " Osório ainda hesitou uns instantes em responder ao convite, mas acabou por dizer que ficaria para uma outra oportunidade, inventando uma desculpa qualquer para a sua recusa em conhecer essa Ana. Saiu do bordel a pensar na Matilde Vieira que parecia tê-lo enfeitiçado, só de a ter visto de relance. "Ora bolas!" praguejou para consigo e continuou no seu monólogo interior: "A tipa não me sai da cachimónia e eu que nem sequer falei com ela. O que seria de mim se tivesse entrado na intimidade dessa Matilde? Ele há com cada uma! E isto nem parece que se está a passar comigo. Sinto-me completamente apanhado pela sujeita. É uma fixação, gaita! Mas tenho de a esquecer, tanto mais que, dentro de poucos meses, estarei na minha terra, com o meu "carocha" que vou levar. Lá irei ser Rei e Senhor e terei mulheres à farta. E o automóvel, embora em segunda mão, vai-me ser muito útil nos engates, além do mais. Porque é que hei-de me preocupar com uma pega, quando o mais certo é nunca mais lhe pôr a vista em cima? Raios a partam !"
Decorridos poucos meses, Hermínio Osório chegou à sua cidade com o respectivo curso de engenharia civil e ficou logo a saber que Eduardo Semedo andava a viver com uma europeia loira, de seu nome Matilde Vieira, uma estampa de mulher. Osório não precisou de perguntar nem de ver mais nada. O filme e as personagens estavam completamente identificados. Agora tinha de se pôr em campo para definitivamente ajustar contas com Matilde Vieira que, lá bem no fundo, continuava a obcecá-lo. Para já tinha de pensar na táctica adequada a tal fim. Não excluía a hipótese de jogar com um trunfo irrebatível -- o saber de ciência certa que ela havia sido pega num lupanar da metrópole. O que obviamente nada tinha a ver com a profissão de assistente social que ela, com uma certa ironia, tinha feito constar que exercera anteriormente. Mais uma vez, porém, Osório mal suspeitava que um homem iria, de novo, antecipá-lo, cravando bem fundo as garras no corpo de Matilde Vieira e fazendo gorar em definitivo todo e qualquer plano que ele tivesse em relação à mesma mulher.
Eis como tudo se passou: todas as noites, Eduardo Semedo tinha por hábito percorrer no seu automóvel os arrabaldes da cidade em busca das suas concubinas. Ultimamente andava, contudo, com o moral em baixo, pois, semanas antes, surpreendera Matilde Vieira, na cama, por volta das quatro horas da manhã, com outro homem. Este chamava-se Silvino Lopes. Era um empregado bancário, chegado pouco tempo antes à cidade, transferido de outro lado, e estava a fazer um sucesso estrondoso com as mulheres. Livres e casadas. Era jovem, solteiro, atraente, insinuante e, ainda por cima, dispunha de um activo nada negligenciável -- o automóvel. Em certos círculos femininos, não se falava de outro homem.
Para Eduardo Semedo, teve o efeito de uma bomba o quadro em flagrante intimidade que se lhe deparou em toda a sua crueza. Os dois amantes pareciam devorar-se um ao outro, com frémitos e gritos de gozo, alheios a tudo que nem sequer deram pela entrada de Eduardo Semedo na alcova. Furibundo e descontrolado, a primeira reacção de Semedo foi munir-se de um chicote de cavalo-marinho, que estava pendurado no bengaleiro, e desatar a fustigá-los nus tal como se encontravam. Foi um pandemónio. Os gritos de prazer e de gozo transformaram-se num instante em brados lancinantes de dor e de sofrimento. Silvino Lopes apenas teve tempo para deitar a mão às calças e fugir pela porta fora, não sem antes levar nas costas umas fortes vergastadas que lhe deixaram marcas bem visíveis na pele. Matilde Vieira, que também foi atingida com duas ou três chicotadas, seguiu Silvino de perto, mas não pôde levar consigo qualquer peça de vestuário, e assim não teve outro remédio senão escapulir-se em pêlo. Silvino tinha o carro à porta e num ápice entrou no veículo e arrancou em grande velocidade. Matilde Vieira desapareceu a correr em direcção à casa de uma amiga a cuja porta bateu aflita e ali foi acolhida.
Apesar da hora tardia a que os acontecimentos tiveram lugar e para mais entre quatro paredes, no dia seguinte, de forma enigmática, na cidade não se falava de outro assunto, entre risos, chacotas e dichotes. Com piadas brejeiras e até cruéis, a populaça visava unicamente Eduardo Semedo e Matilde Vieira. Foram piadas e anedotas que entraram na gíria popular e que de futuro seriam lembradas e reproduzidas sempre que se tomava conhecimento de casos parecidos com o que esse casal protagonizou.
Quinze dias depois, Matilde Vieira, que não voltou a ser vista em público, deixou para sempre a cidade, num paquete que fazia ligação com a metrópole. Metrópole onde Matilde Vieira teria com toda a certeza uma qualquer Dona Rute à sua espera, cumprindo assim fatalmente o seu destino.
Eduardo Semedo, embora magoado e ferido no seu orgulho varonil, continuou as suas incursões nocturnas à procura das restantes amantes. Quanto à casa da cidade, essa ficou sem qualquer mulher...