Quem e quantas foram as vítimas dos acontecimentos de 27 de Maio de 1977, em Angola?
Tem a palavra a Inteligência Artificial: Os acontecimentos de 27 de Maio de 1977 em Angola foram uma purga política e repressão em massa após uma alegada tentativa de golpe de Estado, liderada por Nito Alves contra o governo do presidente Agostinho Neto.
Número de vítimas:
Não existe um consenso absoluto, mas estima-se que entre 30.000 e 80.000 pessoas tenham sido assassinadas ou tenham desaparecido na repressão que se seguiu. A Associação de 27 de Maio aponta para mais de 80.000 mortos, ao passo que estimativas governamentais e de sobreviventes rondam as 30.000 vítimas.
Quem foram as vítimas:
Perfil: A repressão visou milhares de militantes, intelectuais, jovens e quadros do MPLA que integravam a facção "fraccionista" ou que eram simplesmente simpatizantes das ideias de Nito Alves e José Van-Dúnem.
. Figuras proeminentes: Entre as muitas baixas destacam-se as figuras históricas da ala esquerda do MPLA, comandantes militares, o então Ministro da Educação (António Jacinto), o chefe do Estado maior das FAPLA (Comandante Bula) e os dirigentes José Van-Dúnem e Sita Valles.
. Repressão oficial: As execuções sumárias foram conduzidas pelo aparelho de segurança do Estado (DISA) e tropas cubanas, estendendo-se a prisões arbitrárias e tortura de milhares de cidadãos de todo o país.
O MEU TIPO INESQUECÍVEL (11)
(UM HOMEM JUSTO)
Ilídio Pinto era o chefe do pessoal menor na repartição pública onde ele prestava serviço. Tal cargo deixava-o manifestamente orgulhoso. Homem de condição humilde e contando sessenta e tal anos de idade, Ilídio Pinto era conhecido pelo seu bom humor, à-vontade no trato, fosse com quem fosse, superiores hierárquicos ou não, e sobretudo por algumas histórias picarescas que ele protagonizou. Histórias que ele apimentava de um modo geral com um alcoolismo levemente disfarçado. Dava-se bem com toda a gente e, porque tinha sempre uma piada na ponta da língua, não deixava ninguém indiferente. Ao fim e ao cabo, todos gostavam dele, embora, em muitos casos, com alguma condescendência. Uma das histórias que se contavam acerca desse nosso herói, passou-se com Matos Chaves, um subdirector afamado pelos seus supostos dons intelectuais e culturais e, por isso, muito respeitado na cidade. Matos Chaves incumbiu o nosso personagem de fazer a entrega, a uma entidade oficial, de uma exposição por si elaborada, na qual, em nome de uns professores de ensino liceal particular, se faziam determinadas reivindicações de ordem fiscal. Até aqui, tudo muito bem. Só que, ainda antes de levar a cabo a diligência, Ilídio Pinto, indiscreto como era e porque se considerava apreciador da prosa de Matos Chaves, resolveu, com uma certa displicência e num momento de ócio, proceder a uma leitura da mesma exposição. Folhando esta com algum vagar, de repente os seus olhos detiveram-se em duas palavras que lhe fizeram abrir ao de leve a boca em ar de surpresa e estupefacção. E murmurou:
-- "Corpo docente?!" Não pode ser. Matos Chaves é homem competente e sabedor, ele que me desculpe, mas aqui errou. "Docente" é palavra que não existe. "Decente", sim, e vou corrigir.
Dito e feito. Mudou os caracteres de "o" para "e" e lá seguiu a exposição para a entidade destinatária, não com o "corpo docente", como estava escrito no original, mas sim, com o "corpo decente" tal como mui doutamente entendeu Ilídio Pinto.
I'M IN HEAVEN
Acolhemo-nos à sombra de uma árvore, virei-me para ela e disse-lhe:
-- Bom, parece que temos de nos despedir. No entanto, gostava de lhe fazer um último pedido -- que nos voltássemos a encontrar uma vez mais e ainda antes da nossa despedida final. O pretexto poderia ser, por exemplo, uma ida ao cinema hoje, à sessão das seis horas. O filme que vão passar é o musical, Chapéu Alto, com Fred Astaire e Ginger Rogers. O que é que acha? Encontrar-nos-íamos aqui mesmo neste lugar às cinco horas e meia para irmos à bilheteira que é ali perto, como sabe, aliás.
-- Acho bem. Está combinado. - Respondeu ela.
-- Então até logo, às cinco e meia. -- Retorqui por meu turno, estendendo a mão que ela apertou suavemente.
Em seguida, separámo-nos cada um em direcção às respectivas residências. No meu caso, a residência era o hotel onde me havia hospedado, uma semana antes, e enquanto não chegasse o barco em que eu iria viajar.
Quinze minutos depois de nos termos despedido, eu estava debaixo do chuveiro para um segundo duche daquele dia. Desta feita, sobretudo, para me refrescar e tirar do corpo a água salgada, como era o meu costume quando ia à praia. Findo o banho, vesti uma camiseta branca e umas calças azuis que retirei de uma das gavetas da cómoda e onde notei que repousava também o meu revólver Browning, de calibre 6.75. Tratava-se de uma oferta antiga de um amigo e que nos últimos tempos, sem saber porquê, sempre me acompanhava. De seguida fui almoçar. Comi sozinho, pois, dada a hora de certo modo tardia, os restantes hóspedes já o haviam feito. Finda a refeição, voltei ao quarto para descansar um pouco e acabei por dormir algum tempo. Acordei já passava das cinco horas e logo me lembrei do compromisso assumido, algumas horas antes, de ir ao cinema acompanhado de uma rapariga. Levantei-me à pressa, mudei de roupa envergando algo que se adequava à circunstância. Cheguei ao local de encontro com cinco minutos de antecedência que aproveitei para ir à bilheteira, a dois passos dali, para comprar os bilhetes. Pedi dois lugares do centro da plateia, a zona da minha preferência fosse qual fosse o espaço em que se exibiam filmes ou tinham lugar outros espectáculos. Fiz o pagamento e regressei ao ponto do jardim público combinado para o encontro. Já passava das cinco horas e meia , mas ela ainda não tinha aparecido. Atribuí o atraso a qualquer imprevisto de última hora, pelo que não dei qualquer importância à ausência da minha convidada. Afinal de contas faltavam ainda pouco mais de vinte minutos para o início da sessão e o recinto do cinema distava apenas cerca de quinhentos metros do local em que me encontrava. Entretanto, sentei-me num banco que estava disponível, mesmo ao pé de mim, enquanto aguardava a chegada dela. Contudo, passaram-se dez minutos e da minha amiga nem sinal. Uma vez que nunca fui homem dado à paciência, comecei a ficar ligeiramente nervoso e, para tentar acalmar-me, acendi um cigarro. Volta e meia olhava para os lados de onde supunha que ela surgiria. Mas debalde. O cigarro tinha entretanto chegado ao fim e a situação mantinha-se inalterada. Olhei para o relógio e constatei que faltavam cinco minutos para as seis horas e de repente ocorreu-me que ela talvez tivesse feito confusão quanto ao local de encontro -- este, em vez do jardim, seria à entrada do proprio recinto do cinema. Mas também pensei se essa "confusão" não seria tão-só um desejo meu provocado pela ansiedade e impaciência que já quase me dominavam de modo insuportável. Em todo caso, achei que estava a fazer figura de parvo e que aquela espera inútil e ridícula não podia continuar. Cheguei mesmo a admitir que as pessoas que passavam ao pé mim sabiam de tudo o que estava a acontecer-me. E mais: sabiam e intimamente até zombavam do facto de eu estar ali, com dois bilhetes de cinema no bolso, à espera de uma rapariga muito mais nova do que eu, a quem convidara para ir ver um filme, e que, em jeito de chacota, me tinha deixado só e abandonado naquele banco de um jardim público. Enfim, eu estava reduzido a um mero simplório. Não hesitei nem mais um segundo. Levantei-me de modo resoluto e segui em passos rápidos para o recinto do cinema. Ali chegado, verifiquei que a luz e o toque intermitentes, que avisavam do início iminente da sessão, estavam já ligados e à entrada dessas instalações, que eram ar livre, apenas se encontravam o porteiro e o habitual agente da polícia. (A presença deste e de outros, numa sessão de cinema, foi coisa que sempre me intrigou, pensei sem saber como é que tal lembrança me veio à cabeça, tendo em conta o estado de espírito em que me encontrava). Da minha convidada continuava a não haver qualquer indício. Pouco depois, apagaram-se as luzes do recinto e o ecrã iluminou-se com um complemento qualquer que, como de costume, antecedia o filme principal. Ainda acariciei a hipótese de entrar e assistir sozinho à sessão, mas, ao mesmo tempo, concluí que a ideia não me agradava. Havia planeado ver o filme acompanhado e não me sentiria bem se o fizesse em solidão, pelo que afastei tal alternativa. Lembrei-me subitamente dos bilhetes e achei que não deveriam ficar perdidos. Avistei dois rapazotes de aspecto humilde, que se encontravam não muito longe de mim, e calculei que estavam ali por falta de dinheiro para as entradas. Aproximei-me deles e perguntei-lhes se queriam ver o filme, para o que lhes oferecia dois ingressos. Responderam afirmativamente e receberam com notória avidez os dois pequenos rectângulos de papel que lhes iriam franquear de forma inesperada as portas do sonho e da fantasia, e encaminharam-se sem demora em direcção ao porteiro.
Sentia-me lívido e vazio. Pior do que isso: sentia-me profundamente deprimido e frustrado com o que acabara de me acontecer, ao ponto de não saber o que fazer, o que pensar, que caminho tomar. Estava incapacitado de admitir que um dia, que me havia corrido tão bem, fosse terminar de modo tão aziago. E logo na véspera da minha partida! Mas, para tentar recuperar o equilíbrio psicológico, decidi esquecer tudo e repetir o que em circunstâncias análogas costumava fazer -- procurar um refúgio qualquer, neste caso o refúgio do meu quarto de hotel, estender-me em solidão na cama, com a luz apagada, e fumar uns cigarros ao som do meu pequeno aparelho de rádio. E assim iniciei a caminhada cabisbaixo e devagar, de mãos enfiadas nos bolsos das calças, mergulhado no lusco-fusco daquele fim de tarde que para mim se tornara inesperadamente sombrio e melancólico.
Pouco depois de encetar o trajecto que me conduziria ao hotel, já nas traseiras das instalações do cinema, avistei a uns metros de distância, um automóvel azul-claro, de marca Austin, discretamente estacionado debaixo de uma árvore e onde a penumbra era mais intensa. Não tive a mais pequena dúvida de que o veículo pertencia a um sujeito que eu vagamente conhecia e que tinha fama de ser mulherengo e à medida que eu avançava ia notando que o carro estava ocupado por duas pessoas, mais propriamente por um casal. O homem estava sentado do lado do volante e parecia inclinado sobre a sua companheira. Quando eu me encontrava a poucos metros do veículo, reconheci com toda a segurança o tal indivíduo mulherengo e virei-me então para a segunda ocupante. Fiquei estarrecido. Nem queria acreditar no que os meus olhos viam. Era a minha convidada de há pouco. Estava a ser beijada sofregamente nos lábios pelo seu companheiro, cuja mão direita acariciava-lhe os cabelos e a esquerda estava enfiada no interior da sua blusa sobre um dos seios. Apercebi-me de que todo o meu ser se encontrava em processo de alteração súbito e radical. A adrenalina invadia-me o corpo dos pés à cabeça e o sangue afluía-me à cara. Comecei a sentir calor e as têmporas latejavam-me com grande intensidade. Já não era a pessoa de uns minutos antes. A depressão, a melancolia, tudo havia desaparecido, como que por encanto, para dar lugar a um estado de excitação invulgar e, em paralelo, a um desejo de desforra e vingança que nunca, em toda a minha vida, havia experimentado. Sentia-me capaz de tudo. De imediato veio-me à mente o Browning 6.75. Bastava um pulo até ao hotel e ir buscar o revólver. Foi o que fiz. Em total silêncio, tal como havia chegado, afastei-me do veículo sem que nenhum dos seus dois ocupantes tivesse dado por mim. A distância que me separava do hotel não passava de minutos, mas, apesar disso, estuguei os passos. Instantes depois, entrava no meu quarto do hotel em direcção à cómoda de cuja gaveta superior retirei a arma. Meti-a com rapidez no bolso direito das calças e, sem perder tempo, encaminhei-me para a saída do hotel. Nesse preciso momento, uma dor fina e aguda percorreu-me o braço esquerdo de uma ponta à outra. Ao princípio fiquei levemente surpreendido, tendo em conta que tal nunca me havia acontecido. Mas, ao mesmo tempo, atribuí a dor ao estado de nervosismo em que me achava, pelo que resolvi esquecer o incidente. Já na rua, retomei sempre à pressa o trajecto contrário ao de há pouco, e, a meio do percurso, voltei a sentir a dor no mesmo braço, desta feita com mais força. De modo instintivo comecei a massajar o membro dorido com a mão direita, sem, no entanto, interromper a caminhada. Ao virar da esquina das traseiras do recinto do cinema, verifiquei que o Austin continuava estacionado no mesmo lugar, o que me deixou mais tranquilo, apesar de tudo. Abrandei os passos com alguma cautela. A mão direita acariciava nervosamente a coronha do Browning, que permanecia no interior de um dos bolsos das calças. Nesse exacto instante notei, pelo som que vinha do ecrã, que a projecção do filme já tinha principiado e que, dentro em pouco, Fred Astaire iria começar a cantar Cheek to Cheek com o verso Heaven, I'm in Heaven. "Estou no Céu", pensei eu, "Que ironia! Daqui a nada, o mais certo é eu estar no inferno". Continuei a caminhar em direcção ao automóvel e logrei alcançar uma distância que me permitia ver que ele e ela se mantinham enroscados um no outro, alheios a tudo. Ele desfrutava da sua companheira com a voracidade própria dos predadores seus semelhantes. Consegui, com uma calma inesperada, contemplar aquela cena por alguns segundos e foi então que tive a consciência clara de que o meu estado de saúde era bem mais grave do que até então havia pensado. Não me restavam dúvidas de que o meu fim estava próximo. A dor no braço persistia e, entretanto, transmitira-se para o centro do peito, acompanhada de uma forte opressão na mesma zona do corpo. Comecei a transpirar com uma certa abundância na testa e a sentir-me nauseado e fisicamente incapaz de sacar do revólver e caminhar na direcção do lado em que se encontrava sentado o meu rival, tal como eu planeara em espírito pouco antes. O único movimento que me foi possível fazer, e mesmo assim, com alguma dificuldade, consistiu num recuo lento para as traseiras do veículo e amparar-me na árvore onde fiquei encostado. A visão turvava-se-me gradualmente e, em simultâneo, comecei a deslizar para baixo até me sentar no chão. Algum tempo depois (tempo de cuja duração não tive a mais pequena noção), ouvi alguém perguntar aos ocupantes do automóvel se me conheciam e ambos terem respondido negativamente. Ela chegou mesmo a acrescentar que não faziam qualquer ideia das razões por que eu me encontrava nesse lugar. A seguir, ouvi o toque intenso da sirene de uma ambulância para cujo interior fui levado em qualquer coisa que me pareceu ser uma maca. Ainda consegui aperceber-me de que a rua e as imediações continuavam desertas. O único sinal de vida era o som volumoso do filme que passava na tela e, entrementes, Fred Astaire começou a cantar Cheek to Cheek:
Heaven, I'm in Heaven / And my heart beats so that I can hardly speak/ And I seem to find happiness I seek/ When we're out together dancing Cheek to Cheek.
Heaven, I'm in Heaven, And the cares that hung around me thro'the week/
Seem to vanish like a gambler's lucky streak/ When we're out together dancing cheek to cheek/
Oh! I love to climb a mountain/ And to reach the highest peak/ But it doesn't thrill me as much/ As dancing cheek to cheek/
Oh! I love to go out fishing/ In a river or a creek/ But I don't enjoy it half as much/ As dancing cheek to cheek/
Dancing with me / I want my arm about you/ The charm about you/ Will carry me thro'to heaven/ I'm in Heaven/
And my heart beats so that I can hardly speak/ And I seem to find the happiness I seek/ When we're out together dancing cheek to cheek