Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo. (...)
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada. (...)
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão. (...)
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda, ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre o que só tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta (...)
Fernando Pessoa (Álvaro de Campos), in Tabacaria (1928)
Donald Trump para Joe Biden: Obrigadinho, ó Joey. A forma desastrosa como te portaste no debate comigo, na noite de 27 de Junho, e também a tua teimosia em te manteres na corrida à Casa Branca, são dois esplendorosos contributos, da tua parte, para a minha mais do que certa vitória nas próximas eleições presidenciais de 5 de Novembro. Continua assim que irei longe, ó Joey: na política e no resto.
O MEU TIPO INESQUECÍVEL (6)
(OU O TOQUE DE ANTI-MIDAS)
O toque de Midas era, como se sabe, o dom que o rei Midas possuía de transformar em ouro tudo em que tocava. Como iremos ver de seguida, com o nosso herói acontecia exactamente o contrário: transformava em cinzas tudo em que tocava. O nosso herói tinha o toque de anti-Midas.
Para começar o sujeito, que, entre outras coisas, sonhava ser poeta famoso, era um vitorioso em todas as pelejas. Ou melhor: na qualidade de alguém imbuído de um narcisismo ultradoentio, de um egocentrismo incontrolável, de uma auto-confiança desmesurada, de um atrevimento inigualável, julgava-se sempre um vitorioso em todas as pelejas. Vamos ilustrar esta premissa com algumas das suas várias aventuras, ou antes, com algumas das suas várias desventuras.
Principiemos pelo início e com uma sua odisseia de carácter artístico. Aí pelos seus vinte anos, fez amizade rápida, como era seu costume quando farejava nas hipotéticas amizades algo de proveitoso em termos pessoais, com um catedrático (um poeta há muito falecido e hoje caído em total esquecimento) vindo da antiga capital do império e presente na cidade por uns dias e para umas palestras sobre literatura. Alguns passeios nocturnos pela urbe e muita conversa depois, o catedrático deu-lhe a saber que iria abrir dentro de pouco tempo, na antiga metrópole, um concurso de revelação em poesia e sugeriu-lhe que se candidatasse a esse certame. Que preparasse um livro e lho mandasse para esse efeito. O mais breve possível. O nosso personagem, que aceitou de bom grado o alvitre, não tinha coisa nenhuma vertida em papel, mas isso não seria problema para ele. E não perdeu tempo. Escreveu e mandou dactilografar o livro em menos de um fósforo. A convicção de que o prémio estava no papo era tal que despachou o original sem cuidar sequer de conservar em seu poder qualquer cópia do sobredito. Pensou ele para com os seus botões: Para quê ficar com uma cópia do livro, se vou ganhar com toda a certeza o concurso? Lá está: um vitorioso em todas as pelejas. E mais: duas ou três semanas depois de ter remetido o original, ainda sem saber nada acerca do resultado do concurso e dominado pela mesma certeza de que seria o seu vencedor, expediu um telegrama para o Professor do seguinte teor: "Mande cinco mil escudos por conta do prémio". Esclareça-se que "cinco mil escudos" eram então uma pequena fortuna. Claro que o homem não lhe deu sequer qualquer resposta ao telegrama. Claro que nem tão-pouco lhe mandou fosse o que fosse. Claro que as relações entre eles ficaram por aí. Claro que o nosso herói ficou a ver o prémio por um canudo. Claro que ele perdeu o concurso porque, ao contrário do que piamente acreditava, entre os restantes candidatos (que os havia e não poucos) figurava quem fosse melhor poeta do que ele. Claro que esta primeira derrota devia servir-lhe de lição para o resto da vida, mas isso obviamente não sucedeu. Pior do que isso: mais de trinta anos depois, ainda chegou a alimentar a fantasia (mais uma) de reclamar em tribunal uma indemnização pelo original que nunca lhe foi devolvido. Não foi nem tinha de ser devolvido, diga-se. Ele possuía o dom (entre muitos outros) de aliar as ilusões à sua crassa ignorância, o que, de resto, acontece com uma relativa frequência a outros que tais.
A segunda história é de carácter militar. Sim, de carácter militar. O mundo é pequeno, mas são grandes as necessidades da vida. Estas, por vezes, fazem esquecer a poesia e tudo o mais. E, no caso, tratava-se de frequentar um curso para sargentos milicianos promovido pelo Exército colonial-fascista (sim, pelo Exército colonial-fascista) bastando para tal estar habilitado com o segundo ano dos liceus, requisito que ele preenchia. Ele e alguns outros, refira-se, responderam solícita e afanosamente à chamada . As perspectivas salariais e outros factores tiravam-nos da miséria em que vegetavam e talvez lhes dessem o que à época lhes faltava de todo: um futuro. Alguns passaram no curso e fizeram carreira no citado Exército colonial-fascista e andam (ou andaram) por aí impávidos e serenos. Dois outros, entre os quais o nosso protagonista, ficaram pelo caminho ainda na terra natal. Nem sequer alcançaram o objectivo inicial que era o de transitarem para a antiga metrópole. O passo seguinte seriam as guerras coloniais, que já se desenhavam no horizonte. Falhada mais esta proeza (a segunda) o nosso herói regressou a casa como um perdedor que ele iria ser sempre, ou seja, curvado e de braços caídos. Era o toque de anti-Midas a funcionar em pleno. Mais uma vez e, como iremos ver, não seria a última. Nem de perto nem de longe.
A terceira desventura é de carácter familiar. De carácter familiar? Como assim? Sim, de carácter familiar. E eis como: uma gravidez inesperada e inoportuna de uma sua namorada de ocasião obrigou-o a encarar como inevitável o matrimónio com a dita-cuja. Mas casar como, se nem ele nem ela estavam financeiramente preparados para essa aventura? Se ambos estavam na maior das penúrias? Ora bem, e como sempre, a falta de dinheiro não seria para ele um obstáculo às suas aspirações. Alguém havia de vir em seu auxílio. Mas quem? Claro que se lembrou de alguém. Entre outros possíveis financiadores, ocorreu-lhe uma sua conterrânea e conhecida (mais uma daquelas "amizades rápidas", saídas do nada e que eram a sua marca inconfundível), a viver havia algum tempo na Suíça, que, vinda da antiga metrópole, tinha passado como um relâmpago na cidade como professora liceal falhada (para dizer o mínimo) e acerca da qual se fazia constar o mito (entre muitos outros, por acção e por omissão) de ser docente de uma universidade helvética. Convicto da veracidade de tal mito, o nosso poeta pensou em grande como sempre: "Quem vive na Suiça e é professor universitário tem obrigatoriamente de ser alguém abonado." E não esteve com meias medidas. Nem fez a coisa por menos. Se bem pensou, melhor escreveu a essa mais que provável e presumível benfeitora de última hora. Na missiva enviada à suposta catedrática, contou a história toda, com toda a verdade e sem rodeios: a gravidez inesperada da rapariga, o matrimónio que se impunha, a falta de dinheiro, etc., etc., e rematou a epístola implorando o seu montante preferido: os cinco mil escudos da ordem. A destinatária da carta, que vinte anos antes, por acaso tinha vivenciado, na própria pele, uma experiência em tudo igual à da dita namorada, experiência essa que era, tal como várias outras, um seu segredo muito bem guardado e que, por isso, o nosso herói desconhecia de todo, deve ter-se sentido chocada com as más recordações que o mesmo pedido e as suas razões lhe trouxeram. E sem revelar claramente o seu segredo, desabafou na resposta endereçada ao nosso herói, desancando-o com um duríssimo sermão pelo seu comportamento, que ela considerou no mínimo irresponsável, e indo ao ponto de deplorar amargamente o drama, a desdita, a triste sina das mulheres da sua terra. Ela sabia, e muito bem, do que estava a falar. E a quantia solicitada? Pois bem, sem quaisquer explicações, sobretudo para não dar parte de fraca, ela juntou desprezivelmente à carta aquilo que a sua condição de mulher e simples imigrante de parcos recursos pecuniários consentia: uma nota de uns míseros quinhentos escudos, isto é, um décimo do montante pedido, e ele que fosse com sorte. O nosso poeta viu-se mais uma vez perante o flagelo de uma batalha perdida e perante o avantesma do toque de anti-Midas. Não teve outra saída a não ser casar-se na maior das indigências. Quem anda à chuva, molha-se e ele, um atrevido encartado, andou toda a vida debaixo de grossa chuvada.
Este episódio fatídico antecedeu por um curto lapso de tempo o fim da primeira parte da estadia do nosso poeta na terra onde nasceu. Seguir-se-ia a fase passada no estrangeiro, mais propriamente na Guiné-Conacri. Neste país da África Ocidental situava-se a base da força política que à data lutava, de armas na mão, pela independência da sua terra natal e era lá que o nosso herói iria dar início ao próximo capítulo das suas desventuras. Esse capítulo foi de carácter politico-militar e foi sol de pouca dura. Juntou-se a tal organização e por lá se manteve alguns meses até que entrou em vários conflitos insanáveis com o grande líder. Os conflitos eram tantos e tão graves que deram em ruptura total e definitiva. O passo seguinte foi andar em bolandas pelos países vizinhos, onde aqui e ali foi obrigado a ganhar a vida modesta e penosamente e onde aproveitou para exibir cartazes nas costas, pelas ruas de uma das cidades por onde passou, protestando contra o tal líder e também para recuperar a esposa que por lá tinha ficado. E assim terminou mais uma infeliz odisseia deste nosso pobre herói. O fantasma do toque de anti-Midas continuava a assombrá-lo de forma impiedosa e ele nem sequer tinha visto tudo.
Por algum tempo, perdeu-se-lhe o rasto, deixou de ser notícia. Até que uma revolução, na antiga metrópole, abriu perspectivas de independência a curto prazo da sua terra natal e foi para ele o pretexto para lá aterrar sem delongas. Foi apalpar o terreno. Foi ver onde paravam as modas. Foi tomar o pulso à situação. Foi estudar o ambiente. Numa palavra e concretizando: foi ver se poderia apanhar o novo comboio que começava a estar em andamento. Por isso, sondou este e aquele. Fez contactos informais. Uns na cidade e outros à beira-mar. Nada. Zero. Tudo infrutífero. Os novos senhores eram gente de boa memória e de muito rancor. Não estavam esquecidas as ofensas imperdoáveis de que o grande timoneiro fora alvo. (O grande timoneiro agora falecido mas cada vez mais idolatrado). Nada feito. Não havia qualquer lugar para ele na nova ordem política e social. Assim não teve outra alternativa senão (re)fazer as malas e levantar voo. Mais uma batalha perdida pelo nosso bardo. Mais uma vez curvado e de braços caídos. Mais uma vez vencido pelo espectro do toque de anti-Midas.
Caiu de novo no olvido. Deixou-se de se falar dele. Entretanto, e durante quinze longos anos, os tais novos senhores da sua terra natal (des)governaram em ditadura e opressão. Mandaram e impuseram-se sem oposição, sem contraditório, sem alternativa, sem alternância. Em resumo: copiaram à letra os regimes totalitários que imperavam no Leste. Até que se fez luz e Deus achou que era bom. Já não soprava nenhum vento do Leste. Os ventos agora vinham do Oeste. Era a liberdade e a democracia finalmente conquistadas. O nosso vate mais uma vez não perdeu tempo. Ala, que se fazia tarde. Se bem pensou, melhor o fez. Voou de novo e sem demora para a sua terra natal, onde desembarcou aos caídos e onde, logo à chegada, foi amparado por dois ou três profissionais costumeiros do activismo solidário. Profissionais costumeiros do activismo solidário que o são na maior parte dos casos apenas para ficarem bem na fotografia perante os seus conterrâneos. Mas voltemos ao nosso protagonista. Com o seu apurado sentido de oportunidade, ele aparecia sempre nos momentos cruciais, quer dizer, nos momentos de profunda viragem política do seu país. Desta vez não havia contas antigas a ajustar. Desta vez os contactos foram mais profícuos, muito embora sem terem propiciado aquilo que ele, lá fundo, mais almejava: um cargo ministerial. Ele que se contentasse com um lugar equiparado a director-geral e que fosse com sorte. Só que mais uma vez as coisas correram-lhe mal. Desta feita o mal era mesmo grave. E que mal foi esse? Nada menos do que um alcance de milhares de contos de reis. Então e ainda hoje uma grande fortuna. Tudo em resultado de gastos milionários a título pessoal a que se entregou em poucos meses do exercício do mesmo cargo. Um alcance ao qual se deu toda a publicidade, pelo qual o nosso herói foi severamente criticado e por causa do qual foi-lhe apontada de forma irrevogável a porta de saída imediata para a rua e para o desemprego.
A partir daí, e agora passando enfim a residir no seu país natal (que remédio?!), com ausências mais ou menos prolongadas na antiga metrópole e abusivamente aboletado em casas de alguns dos tais militantes do activismo solidário, voltou a andar em bolandas, que é como quem diz, voltou a viver de expedientes. Ora publicando livrinhos de poesia (que ninguém leu) dois em francês e um outro em português, neste caso, com recuperação de versos escritos na sua juventude e, portanto, versos datados, publicações que ele nunca tinha conseguido fazer, nem mesmo quando parou em terras francófonas, ora viajando para a antiga metrópole em busca de notoriedade, de dinheiro ou até de saúde, ora pedindo a este e àquele avultadas somas a título de empréstimo e sem nunca (poder) pagar como aliás foi sempre o seu timbre. Ah, antes que me esqueça: e levando invariavelmente na mala dois livros de autores de língua francesa para cuja tradução em português ele andava buscando por todos os meios editora eventualmente interessada. Mais uma vez a sua ignorância crassa a vir ao de cima e que o impedia de ver que os livros a traduzir são escolhas das próprias editoras e não de quem traduz. Mais ainda: os tradutores são escolhas cuidadosas, criteriosas, das editoras e incidem sobre personalidades conhecidas no ramo e com provas dadas e não sobre um qualquer poeta obscuro e, para cúmulo, vindo de um minúsculo e insignificante país tropical que ainda cheira(va) a cueiros.
A parte final do nosso herói foi simplesmente dramática. A doença, a pobreza e o falhanço tomaram conta dele e morreu como viveu: no anonimato que ele sempre abominou. E perseguido até ao fim pelo toque de anti-Midas.
Mais um lembrete para o governo de Luís Montenegro:
Proceder sem mais delongas à limpeza dos estábulos de Augias, ou seja, à limpeza, de alto a baixo, dos diversos organismos públicos em que os esquerdalhos de António Costa há muito assentaram arraiais e de onde não arredam pé se não forem pura e simplesmente afastados por quem pode (e deve) fazê-lo. Um óptimo exemplo disso é a RTP, no topo da qual se encontra um conhecido e fervoroso apoiante da geringonça de má memória e, antes disso, um inimigo figadal do governo de Pedro Passos Coelho. RTP, onde a extrema-esquerda goza de tempo de antena ilimitado e para a qual todos os pretextos são bons para perorar diariamente e vezes sem conta nos telejornais. Mariana Mortágua que o diga.