(...) Peço que exija fazer a corecção de provas - e nelas virgule, pontue, e faça a toilette ortográfica. Se se lhes deixa a eles a correcção de provas - com a minha má letra e o meu estilo fora de moldes - sai uma sarrabulhada. (...)
N. B. - Na correcção das provas - faça as alterações convenientes de gramática, palavras repetidas, incongruências, etc. - a toilette do artigo.
Eça de Queiroz, in carta datada de 4 de Março de 1878, dirigida ao seu amigo e confrade, Ramalho Ortigão, e publicada na sua obra póstuma intitulada Cartas e Outros Escritos, (Edição Livros do Brasil, s/d)
TRISTES TRÓPICOS (1)
(...) Meu querido Ramalho! Revistas e jornais para a chamada América Latina – têm-se criado às dúzias, às grosas. Todo o literato, colocado na passagem dos paquetes do Pacífico, pensa imediatamente em exportar Iiteratura para essas regiões selváticas. Têm-se fundado dessas “Revistas” em Londres, em Liverpool, em Bordéus, no Havre, em Génova, em Cádis! Umas em francês, outras em espanhol, outras em português ou pseudoportuguês. Tenho-as visto, tenho-as folheado com o devido horror!
Ainda há meses, em Londres, me caiu nos mãos um desses monstros chamado (como Você queria para a nossa) "Revista de la America Latina”! - Pois tudo isto, comercialmente, tem falhado - porque o sul-americano é, de todos os seres humanos, o mais indiferente à letra redonda. São chamados civilizados - por se saberem servir, mais ou menos gôchemente, dos instrumentos de civilização que os outros inventam: mas eles próprios nunca tiveram um acto de civilização original - isto é, nunca tiveram iniciativa na esfera do Direito, da Filosofia, da Religião, da Arte, nem uma só ideia sua, nem um feito, nem uma descoberta, nem um folhetim, nem um dito! A poesia parecia ser a sua expressão intelectual instintiva: pois se Você ler, como eu fiz, a colecção dos poetas mexicanos, chilenos, argentinos, etc., verá que eles são infinitamente inferiores aos líricos do “Almanaque de Lembranças”. Eu conheço-os, vivi entre eles. Puras bestas, tendo só de simpático uma certa generosidade hospitaleira, comum de resto a todas as raças que vivem em descampados. Na Havana, num dos seus grandes centros, havia apenas um livreiro para meio milhão de habitantes; e nesse livreiro, só romances de Montépin, que se vendiam por causa da encadernação. Se Você me torna a falar na América Latina, agarro num arrocho! (...)
De novo Eça de Queiroz, desta feita em carta de 26 de Novembro de 1888, também endereçada a Ramalho Ortigão e incluída igualmente no mencionado livro Cartas e Outros Escritos. O título é da nossa responsabilidade.
CONVERSAS EM TEMPOS DE GUERRA (1ª. parte)
(O INIMIGO DO MEU INIMIGO, MEU AMIGO É)
(O AMIGO DO MEU INIMIGO, MEU INIMIGO É)
(OBRIGADO, MÁRIO SOARES)
Os dois amigos regressaram às respectivas residências no Sul do país e retomaram a rotina de dois reformados. Encontram-se hoje numa esplanada a beber café, tendo no horizonte o azul do céu e o azul do imenso Oceano Atlântico. Estão entregues como de costume ao seu desporto favorito: a conversa.
ERNESTO LIMA VITORINO: Vou fazer-te de novo um teste à tua cultura geral. Passo a ler-te excertos de três textos para tu identificares as suas fontes e os respectivos autores.
Escuta o primeiro excerto: (...) No final de Novembro de 1975, a crescente degeneração do sistema parlamentar em Portugal e a força cada vez maior dos movimentos a favor de uma revolução comunista ou, alternativamente, da extrema-esquerda, deu azo a uma revolta militar que havia muito tempo estava na forja. A doutrina e o catecismo comunistas, elaborados pelo próprio Lenine, dizem que os comunistas devem auxiliar todos os movimentos de esquerda e criar fracos governos constitucionais, radicais ou socialistas, para depois os minarem até ao ponto em que eIes próprios possam assumir o poder e criar um Estado marxista. De facto, o que na altura estava a acontecer em Portugal era uma reprodução perfeita do período Kerensky na Rússia. Acontece, contudo, que o vigor de Portugal não fora despedaçado por uma guerra estrangeira. O exército ainda mantinha uma certa medida de coesão. Ao mesmo tempo que a conspiração comunista fermentava, forjava-se secretamente um profundo contragolpe militar. Nenhum dos lados podia reclamar com justiça o pergaminho da liberdade, e os portugueses de todas as classes tinham algo a dizer sobre a vida de Portugal. Muitas das garantias comuns às sociedades civilizadas já tinham sido aniquiladas pela infiltração comunista no decadente governo parlamentar. Em ambos os lados começaram os assassinatos e a pestilência comunista chegara ao ponto em que apanhava os seus oponentes políticos na rua, ou até mesmo os arrancava da cama e os matava. Já tinha havido um grande número de assassínios na cidade de Lisboa e arredores. (...) Fim de citação. Consegues identificar o autor do texto e a fonte deste?
AFRÂNIO BRITO DA CUNHA: Não, não consigo dizer quem é o autor do texto que acabaste de ler e, muito menos, identificar a sua fonte. Talvez uma obra de um autor português.
ERNESTO LIMA VITORINO: Longe disso. O texto é da autoria de nada mais, nada menos do que o grande Winston Churchill (1874-1965). Trata-se de um extracto do seu livro Memórias da II Guerra Mundial (Texto Editores, Grupo Leya, tradução de Manuel Cabral, 1^. Edição, Outubro de 2011, págs. 111/112) e refere-se no original, não a Portugal como parece, mas sim ao período que antecedeu imediatamente a eclosão da Guerra Civil de Espanha (1936-1939). Portanto, onde se lê, na mesma transcrição, No final de Novembro de 1975, Portugal, da extrema-esquerda, portugueses, Lisboa, deve ler-se o seguinte: No final de Julho de 1936, Espanha, anarquistas, espanhóis e Madrid, respectivamente. Com um ou outro exagero, o que o estadista e escritor inglês descreve não deixa de ter espantosas semelhanças com a última fase do processo político que conduziu, em Portugal, ao 25 de Novembro de 1975. Meras coincidências? Ou será que não? É que muitas vezes são insondáveis os desígnios da História. Voltarei mais à frente a falar deste excerto.
Vou fazer-te mais um teste do mesmo género, ou seja, vou pedir-te que identifiques o autor e a fonte dos excertos que se seguem. Ouve: (...) - Ah, tenho de explicar, aqui e agora, o que se passa em Portugal e o que aqui se anda a fazer. Aqui, há uma revolução, sabe? Há um processo revolucionário, sabe? Ainda que se desenrole a par de um processo democrático burguês que ora coincide com os objetivos do processo revolucionário, ora os contraria. A solução para os problemas reside na dinâmica revolucionária; o processo democrático burguês, ao contrário, pretende vincular essa solução aos velhos conceitos do eleitoralismo, invocando a legalidade. Procura um conceito jurídico regulado pelas leis de um regime anterior. Fala de leis a respeitar. Mas, num processo revolucionário, as leis fazem-se: não se respeitam. Entende? A revolução não respeita a lei - cria-a.
(- Mas que diabo entende você pela palavra democracia?) -
- Não será certamente o que vocês, os pluralistas, entendem. Para mim, democracia significa liquidar o capitalismo e os monopólios. E ainda lhe digo mais: Portugal não tem qualquer hipótese de estabelecer uma democracia ao estilo do que vocês têm no Europa ocidental. E com o “já não tem” quero dizer que “não terá outra vez’. Naturalmente que, se em 24 de Abril nos tivessem dito terão-um-regime-como-o-da-França-ou-o-da-da-ltália-ou-o-da-lnglaterra, teríamos exclamado: ”que maravilha! Que alívio!” Mas as coisas não aconteceram assim, a evolução da realidade abriu-nos outras perspectivas e não podemos estar à espera de que os desejos de um povo se limitem ou se cristalizem. Por outras palavras, a vossa democracia ocidental já não nos chega. A vossa coincidência de liberdades democráticas com o poder dos monopólios já não nos interessa. Não a adoptaríamos mesmo que o pudéssemos fazer. Porque não queremos isso. Não queremos uma democracia como a vossa. Não queremos um socialismo, ou melhor, um sonho de socialismo como o vosso. Ficou claro?
(- E como.)
- Aqui precisamos de transformações profundas, radicais, no plano social e económico. Aqui temos duas opções: um monopólio com um forte governo reacionário ou o fim do monopólio com uma forte democracia comunista. (...) E interessa-me liquidar os monopólios, ainda que o tenhamos de fazer, por ora, de forma desorganizada. O que vê agora não passa do princípio. Melhor dizendo, de uma situação provisória. Não julgue que as nacionalizações feitas resultaram de um programa definido. São apenas uma solução para os problemas imediatos. Era preciso nacionalizar mesmo sem o socialismo. E vem você falar-me de resultados eleitorais, de liberdades democráticas, de liberdade! (...) Fim de citação. Responde à minha pergunta: quem é que acabou de falar e onde é que vêm publicadas essas palavras?
AFRÂNIO BRITO DA CUNHA: Assim à primeira vista, ou antes, à primeira audição, parece-me tratar-se do coronel Vasco Gonçalves, o então primeiro-ministro do 5.º Governo Provisório de Portugal. Ele é que tinha esse tipo de tiradas. São palavras que se localizam, com toda a evidência, no Verão Quente de 1975 em Portugal, ou mais apropriadamente, no PREC (Processo Revolucionário em Curso). Não sei responder-te à segunda questão, isto é, onde vêm publicadas as mesmas palavras.
ERNESTO LIMA VITORINO: Falhaste por pouco. Não, não são do coronel Vasco Gonçalves as palavras que eu acabei de te ler mas, sim, do seu ventríloquo de momento, Álvaro Cunhal (1913-2005), o então secretário-geral do Partido Comunista Português. Nos papéis de ventríloquos um do outro, Vasco Gonçalves e Álvaro Cunhal revezavam-se, à época, de acordo com as circunstâncias. Ambos pensavam e diziam à vez as mesmas coisas, conquanto por palavras um pouco diferentes, numa espécie de competição entre os dois e cujo objectivo parecia ser o de mostrar qual deles seria o mais revolucionário. Ficaram célebres dois discursos de Vasco Gonçalves, em pleno PREC: o primeiro no Sabugo, em Fevereiro de 1975, e o segundo e derradeiro em Almada, em Agosto do mesmo ano fatal de 1975. Retomando o texto que eu acabei de te ler, convirá assinalar que se trata de alguns excertos de uma entrevista que Álvaro Cunhal concedeu à jornalista italiana Oriana Fallaci (1929-2006) e publicada na revista L’Europeu, em 6 de Junho do mesmo fatídico ano de 1975. O jornal Expresso publicou em 2014 a mesma conversa, numa colecção de entrevistas com personalidades de todas as áreas, no período compreendido entre 1865 e 2014, em separatas de sete pequenos volumes, e intitulada Grandes Entrevistas da História. A entrevista com Álvaro Cunhal consta do volume n°. 5.
E agora vamos ao terceiro e último teste. Trata-se também de uma entrevista e a pergunta é a seguinte: quem é o entrevistado e onde é que vem publicado o diálogo que te passo a ler?
- Chegamos ao dia. É conhecido o teor do Relatório Preliminar sobre o 25 de Novembro de 1975. Posteriormente, a publicação de alguns livros jorrou mais alguma luz sobre esses acontecimentos. Resumamos, no entanto, o essencial dessas horas- Melo Antunes, numa entrevista a um semanário francês, avisara que “era tempo que o “Grupo dos 9” retomasse a ofensiva política”. Vasco Lourenço fora confirmado pelo Conselho da Revolução no cargo de Comandante da Região Militar de Lisboa. Em Rio Maior, trinta mil agricultores, com o pretexto de uma reivindicação salarial, bloqueavam o acesso a Lisboa. E, já na madrugada de 24 para 25, os para-quedistas de Tancos ocupavam algumas bases aéreas - Montijo, Ota, Monte Real - fazendo prisioneiro o general Freire, em Monsanto, base da qual era comandante. Simultaneamente, o RALIS avançara sobre os acessos à auto-estrada do Norte e ao aeroporto de Lisboa, enquanto a Escola Prática de Administração Militar ocupava os estúdios da televisão, na capital. Tudo se precipitara. Qual é hoje, antes do mais, a sua história? Que versão é a sua?
- Não difere do que é conhecido e que coincide com os pressupostos da sua pergunta. Houve uma tentativa de golpe, animado pela esquerda militar e pelo PCP e uma resposta, ou se quiser, contragolpe da porte do sector democrático, isto é, militares moderados, “Grupo dos 9” e PS, liderando um amplo movimento da sociedade civil. Algures na madrugada de 25 para 26 de Novembro, Álvaro Cunhal deu ordem para que o PC se retirasse de qualquer das movimentações que ocorriam desde a tarde da véspera. O PCP teve, nessas horas, três gestos tão fundamentais quanto reveladores das suas intenções: fez regressar os seus militantes que, na sua maior parte, se encontravam na cintura industrial de Lisboa em diversas unidades fabris - UTIC, Cabo Ruivo, Baptista Russo - perto do RALIS. Terá pensado que essa súbita ordem de desmobilização necessitava de um enquadramento e, por isso, os fez voltar aos Centros de Trabalho do Partido. Em segundo Iugar, mandou retirar as betoneiras da entrada dos Comandos da Amadora. E, finalmente, impediu – o tenente José Miguel Judas - que fuzileiros do Alfeite saíssem rumo a Lisboa. No terreno ficaram apenas os esquerdistas - abandonados pelo PC e também por Otelo, que passou todo esse dia 25 no Palácio de Belém - que viriam a ser facilmente contidos pelo coronel Jaime Neves e pelo Regimento dos Comandos. No COPCON, as actuações foram confusos: Varela Gomes, que para lá se havia deslocado, teve dificuldade em fazer-se obedecer pelos oficiais revolucionários que não obedeciam às suas ordens de comando. A ausência de Otelo fragilizou a vontade dos homens do COPCON e desmobilizou as movimentações previstas. Apesar disto, viveu-se uma situação típica de golpe, com determinadas forças militares agindo concertadamente para forçar o Presidente Costa Gomes a entregar-lhes o poder. Era preciso, a todo o custo, destruir - e, sobretudo, inverter- o que entretanto se conseguira pôr em marcha através do VI Governo e da clivagem operada nos militares. Era preciso cortar o processo democrático iniciado nas urnas e que iria culminar com a aprovação de uma nova Constituição. Tratou-se de um golpe efectivo. Costa Gomes tinha, na Revolução, procurado pairar acima dos conflitos, tentando reduzir os estragos. Mantivera sempre uma postura hesitante e até ambígua naquele longo e tumultuoso jogo de contrários que se prolongou entre as eleições de Abril de 1975 e o 25 de Novembro do mesmo ano. E, embora transigindo muitos vezes com o PC, contemporizava também, como podia, com o PS. Mas quando, finalmente, se apercebeu, ao longo desse dia, que se estava numa fuga para a frente que poderia ter consequências trágicas para o país e, em seguida, quando compreendeu que o baIanço pesava para o Iado democrático, procurou evitar que tanto comunistas como esquerdistas avançassem. E deu ordens ao almirante Rosa Coutinho e ao comandante Martins Guerreiro que actuassem nesse sentido. Os comunistas obedeceram, os esquerdistas, apesar da ausência de Otelo, resistiram, insistindo nas suas posições, até à intervenção decisiva de Jaime Neves. (...J
- Álvaro Cunhal sustenta, ainda hoje, que o 25 de Novembro foi um golpe e não um contragolpe. Isto é, que do Iado dos comunistas não havia nem cadeia de comando, nem plano, nem organização, nem, sobretudo, poder — político, militar e popular — para avançar. Alega que a “direita" se serviu, com grande júbilo, do pretexto de algumas movimentações militares descoordenadas para agir. Sabemos hoje que, a partir da neutralização dos para-quedistas, o campo ficou aberto e propício a quem, no terreno, estivesse melhor preparado para o ocupar.
- O dr. Álvaro Cunhal dirá o que entender, mas a sua tese permanece hoje historicamente indefensável. Nós sabíamos que iria ser tentado um golpe militar, apenas não sabíamos quando. Se não tivesse havido uma reacção tão pronta e bem estruturada, não era impossível que se tivesse vivido em PortugaI uma situação semelhante à cubana. Era o que muitos comunistas tinham na cabeça!
- Considera que o 25 de Novembro foi o fim da Revolução?
- Não. Foi, obviamente, um ponto de viragem, que marcou — como dizer-lhe? — o fim da desfilada em que estávamos a correr paro o abismo. Foi um recomeço; um regresso à pureza inicial do 25 de Abril; um rasgar de novos horizontes e de esperança, com a consolidação da democracia pluralista, num ambiente político de convivência cívica, de alguma paz social e de concórdia nocional. (Fim de citação).
Repito a pergunta: quem é o entrevistado e onde está publicado o diálogo acabado de ser lido por mim?
AFRÂNIO BRITO DA CUNHA: Julgo que o entrevistado é Mário Soares. Acho que li essa entrevista, mas já não me lembro onde, nem quem é o entrevistador.
ERNESTO LIMA VITORINO: Tens razão. O entrevistado é Mário Soares, num diálogo com a jornalista Maria João Avillez e publicado pela primeira vez, em 1996, pelo Círculo de Leitores, no primeiro de três volumes, numa obra com o título genérico de SOARES. A edição que tenho em meu poder leva o número 4285. Antes de avançarmos neste assunto, que claramente se prende com o 25 de Novembro, importa ter presente que este ano se assinala o centenário do nascimento de Mário Soares (1924-2017), a cuja memória eu e tu prestamos aqui a nossa sincera e devida homenagem. Obrigado, Mário Soares. Adiante.
Regresso às citações. Os três excertos relatados convergem todos para a situação revolucionária que, nos 19 meses que se seguiram ao 25 de Abril de 1974, desembocou no contragolpe do 25 de Novembro de 1975.
Volto ao texto de Winston Churchill. Esse texto foi, sem o seu autor querer, premonitório em relação a Portugal, sendo certo que se limitou, pensando no processo político que antecedeu a Guerra Civil Espanhola, a descrever a fase pré-revolucionária que normalmente descamba em ditaduras ou numa guerra civil. Repito: Involuntariamente, Churchill narrou o processo revolucionário português do citado período compreendido entre 25 de Abril de 1974 e 25 de Novembro de 1975. Foi assim na Rússia em 1917 (ver Dez Dias Que Abalaram o Mundo, de John Reed), foi assim, como já dissemos, em Espanha em 1936, foi assim em Cuba em 1959/60, foi quase assim no Chile, em 1973, e noutras paragens da América Latina, e tê-lo-ia sido assim em Portugal, em 1975, não fosse a acção enérgica, firme, concertada e oportuna que as forças democráticas (civis e militares) desencadearam contra o mesmo avanço dos golpistas do Partido Comunista Português e da extrema-esquerda. Estivemos mesmo à beira do precipício, ou seja, de uma guerra civil ou de uma ditadura comunista.
As palavras de Álvaro Cunhal, na entrevista também transcrita, não fizeram outra coisa senão confirmar os planos dos comunistas de tomarem de assalto o poder, mancomunados ou não com a extrema-esquerda. Álvaro Cunhal desprezou, na mesma entrevista, tudo o que, em Portugal, valorizavam as personalidades moderadas (civis e militares), à direita, à esquerda e ao centro: os resultados das eleições para a Assembleia Constituinte (resultados que provaram à saciedade a fraca adesão dos portugueses ao ideário comunista) o pluralismo democrático, a propriedade privada, as liberdades em geral e sobretudo a livre expressão do pensamento. Álvaro Cunhal confirmou, nessa conversa, tudo o que já se sabia acerca da sua ideologia e acerca do que ele e os seus sequazes iriam fazer se o golpe do 25 de Novembro tivesse vingado: iriam impor pela força uma ditadura comunista, portanto, uma ditadura de sinal contrário ao do da ditadura derrubada pelo 25 de Abril de 1974.
Felizmente que o golpe da (extrema-)esquerda foi travado, em 25 de Novembro (de 1975), e Mário Soares foi um dos principais protagonistas das forças que fizeram frente aos aventureiros e aos protoditadores de esquerda. Aventureiros e protoditadores de esquerda que não desapareceram de todo da vida política portuguesa. Continuam entre nós sob outros disfarces e sob outros nomes. São os mesmos, e/ou os seus herdeiros directos, que ainda hoje negam a relevância do 25 de Novembro, enquanto contragolpe e enquanto acontecimento renovador das conquistas políticas alcançadas com o 25 de Abril. São os mesmos que ainda hoje negam que o 25 de Novembro, repetindo as palavras de Mário Soares, Foi o fim da desfilada em que estávamos a correr para o abismo. Foi um recomeço; um regresso à pureza inicial do 25 de Abril; um rasgar de novas horizontes de esperança, com a consolidação da democracia pluralista, num ambiente político de convivência cívica, de alguma paz social e de concórdia nacional. São os mesmos que nos querem impor o politicamente correcto, o multiculturalismo e outras manifestações do wokismo. São os mesmos que vêem o fascismo, o racismo e a xenofobia em qualquer acção policial que vise conter e reprimir a criminalidade vinda de quem não é homem branco. São os mesmos que apoiam, ou pelo menos não condenam expressamente, as reacções violentas de gangs organizados ou não, em plena via pública, contra as pessoas e os seus bens em retaliação por aquilo que eles consideram actos de fascismo, de racismo e de xenofobia. Enfim são os mesmos que não querem ver o 25 de Novembro, tal como ele merece, comemorado, na Assembleia da República, e em todo o país, em pé de igualdade com o 25 de Abril e também decretado como feriado nacional. E é contra esses mesmos que a confortável maioria do centro e de direita do actual Parlamento deve tomar as medidas que se impõem, isto é, celebrar condignamente o 25 de Novembro na Assembleia da República e torná-lo feriado nacional. 25 de Abril e 25 de Novembro sempre! Com ou sem Grândola Vila Morena, cantada em coro, na Assembleia da República, pelos herdeiros dos tais aventureiros e protoditadores de esquerda, logo depois de encerradas as sessões oficiais comemorativas das duas datas.
AFRÂNIO BRITO DA CUNHA: Estou inteiramente de acordo contigo em tudo quanto disseste relativamente à importância política, e não só, do 25 de Novembro e a sua génese. Também estou de acordo contigo na justa homenagem prestada a Mário Soares a propósito do centenário do seu nascimento que se completa no próximo dia 7 de Dezembro. Mudemos de assunto. (Continua)